E tem mais...

(...)

Um monte de coisa misturada..

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A mostra e eu

A minha versão facebook sobre as mini férias que tirei para acompanhar massivamente à 40a mostra seria: "Maravilhosa semana realizando um sonho!"- mas como a maioria dos depoimentos públicos, essa não é a história real.
Já na abertura ouvi vários patrocinadores necessários dizerem mais ou menos as mesmas coisas desnecessárias só que em outras palavras por quase duas horas, para só depois (por volta das 23h - cheguei lá as 20:30h), assistir a um filme italiano de um autor que ainda não conhecia, como a maioria dos diretores com filmes na mostra. Eu curti o filme mas o rotten tomatoes (sempre olho o filme assistido lá), deu menos que 30% de críticas positivas :(

***créditos de todos os filmes abaixo.


O menino que cresce atormentado pela morte mal explicada da mãe em "Belos sonhos"- puro recalque e complexo de Édipo.

- No primeiro dia oficial assisti a um outro filme antigo do mesmo autor italiano e me peguei cochilando por três vezes até perceber que era hora de parar quando meu sonho começava a interferir na narrativa do filme.
Na sequência fui animada pegar a sessão aberta no vão livre do Masp, coisa mais linda de vista, mas resolvi desistir (essa sessão era gratuita), quando me peguei tremendo aos ventos primaveris de SP.
O fato do filme ser em preto e branco também não me ajudava muito a querer ficar.

*tenho essa questão séria com filmes p&b, acho que ficam lindos mas não sinto receber todas as informações necessárias para entender a história, cores são importantes!

- Meu segundo dia foi bom, uma dica legal pra quem quiser encarar essa maratona de filmes na mostra é ir direto pro shopping Frei Caneca que tem a maior quantidade de salas e variedades. Comecei com um filme dinamarquês e depois assisti a um russo. O legal é viajar para essas terras e pessoas pouco comuns ao nosso dia a dia.

Em "Amor e outras catástrofes", a amante tem a esposa como terapeuta, todo mundo engravida e a coisa fica complexa.

                                                    
O Estudante é um filme forte e sarcástico.

- No terceiro dia achei seria hora de procurar um filme brasileiro, o escolhido foi "Fica mais escuro antes do amanhecer", lá no cinesala de Pinheiros, uma das mais lindas de SP. Depois dele fiz uma corridinha que eu subestimei como rápida até o Cinesesc na Augusta para assistir ao Persona do Bergman, mas acabei me deparando com uma fila imensa e uma atendente assustada com a quantidade de suor escorrendo do meu rosto, dizendo que não tinham mais lugares disponíveis. Cuidado com essas sessões especiais, elas lotam!Eu aprendi da pior forma e fiquei puta, resolvi procurar um filme no cinema mais blockbuster da Paulista, o Center3.
O escolhido foi "Genius", que conta a história real do editor que descobriu caras como Hemingway, Scott Fitzgerald e Thomas Wolfe - o foco é no "bromance" do editor com Wolfe.

                              
"Fica mais escuro antes do amanhecer" tem essa cara meio gringa, meio excêntrica, uma fotografia lindíssima, trilha idem, mas peca no roteiro um tanto confuso, sempre nosso grande calcanhar de Aquiles no Brasil. Achei que o roteirista e diretor (com certeza um grande fã do Lars von Trier), pegou Melancholia, Antichristo e Donnie Darko e colocou tudo no liquidificador.

                                   
Colin Firth e Jude Law, dois ingleses com sotaque norte americano em Genius.

- No quarto dia voltei para o Frei Caneca e escolhi pra começar um filme antigo, dos anos 80, do famoso diretor Jim Jarmusch, tava a fim de ver algo mais mainstream, mas "Férias permanentes" não teve nada disso no bom sentido. Na sequência escolhi um filme por que se passava em Cuba. Estou meio obcecada pelo país e sua cultura a algum tempo, ainda não consegui conhece-la pessoalmente então me viro assistindo a seus filmes.

                                    
Férias permanentes e um adolescente classe média andarilho em NY.

                                    
Vinte anos é o retorno da diretora brasileira Alice Andrade para a Havana depois de vinte anos quando acompanhou o casamento de casais tecendo um paralelo entre a história deles no presente e o vislumbre dessa nova economia cubana que começa a se abrir.


- No quinto e último dia me encontrei com Tom Ford, Amy Adams e Jake Gyllenhaal, além de muitas participações chiquérrimas no deslumbrante "Nocturnal Animals". A abertura já te pega de cara em um shot estético de algo que não costumamos ver esteticamente. Não vou entrar em detalhes para não spoiler a experiência, mas deixo vocês com a visão de Amy Adams, divina e fantástica na pele de Susan.

Aufwiedersehen!!





Abertura
Belos sonhos (2016 - Itália) -Direção Marco Bellochio

Dia 1:

A china está próxima (1967 - Italia) - Direção Marco Bellochio
A grande ilusão (1937 - França) - Direção Jean Renoir - não consegui assistir inteiro

Dia 2:

Amor e outras catástrofes (2016 - Dinamarca) - Direção Sofie Stougaard
O estudante (2016 - Rússia) - Direção Kirill Serebrennikov

Dia 3:

Fica mais escuro antes do amanhecer (2016 - Brasil) - Direção Thiago Luciano
FORA DA MOSTRA -  Genius (2016 - EUA) - Direção Michael Grandage    

Dia 4:

Férias permanentes (1980 - EUA) - Direção Jim Jarmusch
Vinte Anos (2016 - Brasil/Costa Rica) - Direção Alice de Andrade

Dia 5:

Pássaros Noturnos (2016 - EUA) - Direção Tom Ford



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Status

É meio difícil escrever sobre a própria vida.
Difícil por que existem pessoas dentro dela e também por que a intimidade, apesar da revolução das redes sociais, é estimada.
É difícil falar sobre si mesma e entender que você pode ser julgada na sequência, que você pode ser tachada por aquilo que você escreveu um dia.

Foi em um desses momentos de dúvida sobre compartilhar ou não o que eu estava sentindo que eu escrevi um dos textos mais libertadores da minha vida:

A fabulosa história da menina que nunca namorou

Era vergonhoso nunca ter tido um namorado por um lado, mas lá dentro de mim eu não entendia o porquê daquela vergonha. E então eu reconheci que sou criada dentro de um modelo patriarcal, que sabemos que existe de forma abstrata na sociedade, mas que depois de muita desconstrução e estudo entendemos existir também dentro de nós.

Esse grande monstro tem o poder absurdo de fazer com que mulheres perpetuamente - principalmente em momentos de vulnerabilidade e falta de atenção -  sintam-se mal: culpadas, feias, inapropriadas.

Hoje eu tenho um relacionamento sério e moro com o meu companheiro. Nosso encontro foi como muitos dos encontros que acontecem nos dias atuais, com alguns problemas de timing, mas no decorrer do tempo nos consolidamos, por escolha, como parceiros de vida, e eu agora não imagino a minha sem ele.

Eu não quero falar sobre o amor romântico, quero falar sobre como eu confirmei, vivendo a dois, que eu não sou mais feliz agora do que antes. Essa é a grande questão. Essa equação que o sistema introjeta - principalmente nas mulheres -  sobre: "ser feliz" + "estar em um relacionamento" não é a verdade.

Eu tenho convicção de que eu sou tão feliz hoje em um relacionamento amoroso quanto quando eu era solteira. Obviamente a situação e os programas são diferentes, continuo sendo humana e insegura, mas os momentos de tristeza acontecem nos dois status.

Acho importante dividir com as mulheres o que ninguém conta pra gente: nós nos bastamos sozinhas, nós podemos ser muito felizes fora de um relacionamento.
Era isso mesmo que eu queria dizer.



Aufwiedersehen!!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Descabimento

Eu estou brava com o mundo.
Mais especificamente com a sociedade.
Eu tenho uma amiga que há uma década decidi que é minha irmã. A gente se entende pelo fundo do cérebro, por entre neurônios que detectam sensibilidade. Nossa lógica é par. O nosso sentido é o mesmo, sempre foi.  Eu me sinto impotente por que não consigo ajuda-la, da mesma forma que ela não pôde me ajudar quando eu precisei.

Amigos não servem para nos ajudar, e apesar de andarmos em bando, não adianta fugir da grande realidade de que os nossos assuntos sempre vêm antes.
Nossa alegria vem antes. Nossa tristeza, nossa euforia, nossa preocupação sempre vêm antes da do outro. É natural.
É ilusório prometer qualquer tipo de relacionamento que fuja dessa premissa.

Amigos servem como aquele olhar distanciado que vê mais do que os reais envolvidos no negócio da alma interior. Amigos são aquela segunda opinião emocionada, por que por mais que sejamos seres humanos naturalmente egoístas, nós amamos. E muito - também por que precisamos de amor.

Minha amiga é cheia de vida. Ela é cheia de talento e muita, muita emoção. A sociedade não está pronta pra aceitar isso, ela - a sociedade - se sente encurralada, apreensiva e desconfortável diante disso. Na hora do "vamo vê" quem sofre são os sensíveis. São os suscetíveis, os vulneráveis pela emoção, por que veem mais do que os outros que seguem com suas vidas objetivamente construídas. E então eles percebem, para confirmar a nossa incompetência, que precisam também se moldar.

Precisam sentir menos. Precisam demonstrar menos. E então percebem que a eles só resta a reclusão, por que não sabem mentir, muito menos fingir. A risada alta com boca aberta se fecha. O cabelo jogado pra trás num movimento de descabimento de alegria dá lugar à cabeça baixa de quem não serve do lado de dentro, por que aqui dentro é pequeno. E mais ainda lá fora. A sociedade é pequena, restrita. E nós somos pequenos por que não conseguimos ajudar. Eu não consigo ajudar.

Aufwiedersehen

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Solidão compartilhada

Dizem que quando você encontra o amor você nunca mais fica sozinho.
Dizem que você tem alguém com quem dividir suas dores pra sempre.
Dizem também, que a pessoa vem pra completar algo que te faltava.

Eu por mim digo, você pode estar sozinho ao lado de alguém, não por vontade do outro, mas por que ele mesmo não está consigo. A solidão compartilhada é tão ou mais triste que a solidão original. Você vê uma carcaça que se parece com o ser amado, mas seu espírito não o acompanha, apenas palavras vazias de resposta branda. Nem um ódio derramado, apenas o vácuo do nada que tromba com a sua vaidade.

As dores podem aumentar com o amor, por que a sua felicidade e resolução de problemas não depende mais de você, há um ser muito especial andando por aí com seu coração. Parece brega, mas o fato de você ter alguém não só te coloca quentinho em noites de sexta-feira chuvosa, você também entrega um pouco ou muito da sua autogestão , além de precisar de qualquer forma dividir seus sentimentos, você precisa sim, falar muito. Não durma com assuntos mal resolvidos.

E por último, por favor, ninguém completa ninguém. Você sozinho já é demais, e não no bom sentido do termo. Todas as suas crises, mal entendidos, dúvidas, manias, chatices continuam existindo ao lado de outro mais do ser amado e vocês precisam diariamente sentar juntos e como em uma banda de dois, afinar os instrumentos para que a música saia melhor. E eu posso prometer, em alguns dias vocês são capazes de verdadeiras obras-primas.

Aufwiedersehen!!

Os perigos do emoticon

Não, não há nada de errado com os emoticons, sou apaixonada pelo poder de síntese que essas carinhas marotas têm, mas isso pode ser um problema quando se quer comunicar algo mais complexo, principalmente quando se tem um objetivo específico.

Ultimamente tenho me deparado com muitos conteúdos que fazem alusão a forma como a mulher é criada na nossa sociedade, em como somos educadas para ser perfeitas e não corajosas e ousadas, diferente da forma como os meninos são criados. Eu já falei sobre isso aqui: O fascinante mundo masculino, desde pequena eu percebia como as possibilidades dos meninos eram mais diversas para dizer o mínimo, enquanto eu permanecia cercada de proteção, cuidado e consciente de como estava agindo, me portando, me vestindo. Como sou branca, nunca fui pobre e sempre recebi muito carinho, acho injusto dizer que tive uma infância ruim ou um futuro super comprometido por conta do meu gênero, não acho que esse é o ponto aqui, apesar de ter plena consciência de que alguns dos meus potenciais poderiam ter sido mais bem explorados antes, estou aqui correndo atrás do prejuízo eterno que é o patriarcalismo em nossas vidas. Na palestra abaixo, a advogada e política Reshma Saujani diz algo na linha do que eu acabei de dizer, sobre como ela decidiu correr riscos e ser corajosa aos trinta enquanto isso poderia ter acontecido muito antes se não educássemos nossas garotas para serem perfeitas:

Sobre Bravura

Falo dos emoticons, por que eles me lembram da nossa constante necessidade de pedir desculpas, colocar panos quentes e sermos amáveis. Desde que parei para prestar atenção, é impressionante como em vários momentos do meu dia esse pedido tenta sair da minha boca ou para ser escrito em determinado e-mail quando eu não estou fazendo nada além do meu trabalho. Existe uma resistência, principalmente no Brasil do trato gentil, em sermos duras quando necessário, então quando essa necessidade é urgente, diminuímos a força do pedido com um "desculpa", ou um emoticon fofo ;)

No paralelo, estou lendo um livro que já se tornou o principal da minha vida até o momento, da poeta, analista jungiana e outras milhões de coisas essa mulher é maravilhosa, Clarissa Pinkola Estés, que percorreu o mundo ouvindo histórias e contos de fada nos diferentes lugares e culturas, encontrando entre eles nas representações arquetípicas, uma eterna busca pelo nosso eu selvagem, o instinto biológico/natural que é suprimido desde que nascemos pela civilização e pelos costumes. Algo como uma colonização de nós mesmos. Ela foca muito nesse retorno da mulher educada para casar, àquela menina que se ouve e que está sempre em busca do entendimento dos seus desejos mais íntimos. Tem sido uma viagem maravilhosa me enxergar nesses contos, e nas leituras que Clarissa faz da psiquê feminina principalmente, e em todos os limites que nos são colocados pela sociedade na forma como ela é construída pra nós.

Você pode encontrar o pdf desse livro maravilhoso completo aqui: Mulheres que correm com lobos

E no final das contas o feminismo é isso, é dizer que podemos mais, podemos ser o que quisermos, e é revigorante ter essa "permissão" de sermos quem somos, como fomos geradas em nossa essência.
A sociedade como um todo nos diz para ignorar nossos instintos por que somos "muito sensíveis", ou "estamos na tpm", ou "estamos exagerando". É um exercício maravilhoso reverter todos essas prerrogativas negativas e se perguntar: "será?", "será que eu não sei no que isso vai dar?", "será que eu não sei que estou investindo nesse relacionamento - seja ele amoroso, de amizade, profissional - sempre sabendo que ele é ruim para mim? Que ele me faz ser menor do que eu posso ser?"

Eu desejo que cada um de nós, todos os dias, consigamos exercitar essa procura constante por nosso eu selvagem e mais primitivo, ele talvez seja a resposta que sempre esteve em nós, e nem sempre ele é bonitinho, com carinhas fofas e sorrisos.

Aufwiedersehen!!