E tem mais...

(...)

Um monte de coisa misturada..

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Prazer em me conhecer


São 12h de uma terça-feira qualquer em Barcelona. Estamos no Outono, mas ontem o Inverno veio dar um oi nessa ressaca eleitoral brasileira. De acordo com o meu Android - porque não sou socialista de iphone - faz 7 graus lá fora, e pela primeira vez na vida sinto uma certa simpatia pelo frio. Quando chegamos aqui no final de junho já fazia calor, com um vento suave que vinha do mar para refrescar os entardeceres às 22h. Até que veio o fim de semana seguinte ao meu aniversário, dia 5 de agosto, o dia mais quente da minha vida, que me deixou prostrada no sofá sem conseguir me mover. Estou gostando do frio porque hoje ele me permite ser quem preciso ser agora: a migrante introspectiva do interior de São Paulo convertida em imigrante sem papéis. Um problema no pé e a demora para finalização dos meus papéis de trabalho por aqui me impediram de seguir no ritmo que estava acostumada na última década. A menina desligada e desajeitada por ter crescido demais e muito rapidamente, deu lugar a uma workaholic conectada 24 horas por dia, seja no trabalho, seja nas redes sociais, seja aos milhares de amigos a sua volta. Foi excitante me transformar nessa mulher incisiva, às vezes até mesmo brava, foi ela que me levou para Nova Iorque e por dez dias andamos por aquelas ruas falando o inglês que aprendemos com as milhares de séries e filmes. E então ela casou, veio para Barcelona e não pôde trabalhar. Estava longe das amigas, da família, e foi aí que entrou a comida. São 12h de uma terça-feira qualquer friorenta, e comecei esse texto para contar que eu me peguei beijando o biquinho da jarra do liquidificador. A razão de tamanho afeto era o húmus - pasta de grão de bico, alho, azeite, sal e suco de limão - que acabava de bater, e que me fez perceber que talvez cozinhar tenha salvado minha vida, de novo.

Antes de seguir às evidências, gostaria de compartilhar uma situação minha com o Universo, ou a força maior que rege tudo, ou simplesmente, Elza Soares. Os movimentos que a vida faz têm uma sabedoria incrível, o que não quero que vocês entendam como uma afirmação #gratiluz, mas mais como uma concessão cansada mesmo de quem já tentou lutar muito contra. Aceitar é mais importante que lutar, e na verdade, manter-se sã no meio desse caminho é a grande chave do sucesso. Me incomoda hoje a sensação de viver dentro do mundo de Truman, sei que não sou tão importante assim pro universo, senão Jair Bolsonaro não teria sido eleito - nunca vou superar isso - mas sinto que precisamos rever o conceito de livre arbítrio, e aqui, meu ponto de vista é realmente laico - diferente do estado brasileiro, tá parei - apenas uma impressão do quanto somos minúsculos, de que existe sim o fator sorte, e isso inclui privilégio também, e no final das contas para sobreviver hoje é muito mais importante ser flexível que corajosa.

E então, como disse algumas vezes nesse very blog, não somos especiais, mas precisamos nos conhecer. E nesse sentido, a nossa educação em relação a sociedade falha tremendamente. Primeiro porque lutamos boa parte de nossas vidas para sermos aceitos - estou falando em nome dos velhos milleniuns, não sobre essa nova geração super afirmativa que nasceu no orkut. Quando lutamos para sermos aceitos, baseamos nossas escolhas em fatores externos que muitas vezes são nocivos a nossa personalidade. Vou dar um exemplo prático: na Unesp de Bauru havia três faculdades: Faculdade de Ciências, Engenharia, e finalmente a FAAC, de arquitetura, artes e comunicação, onde meu curso de relações públicas estava. No final do meu primeiro ano, já talvez brotando a publicitária em mim, resolvi entrar na Atlética do campus, que era majoritariamente formada por engenheiros, e por lá eu fiquei trabalhando na diretoria de comunicação por mais dois anos. Isso fez com que as minhas primeiras festas com Caetano Veloso, Mutantes, Nação Zumbi, Funk como le Gusta, Teatro Mágico e cia, desse lugar para os Inimigos da HP e o Chiclete com Banana. E não vou dizer que não “Valeu, o nosso amor valeu demais!”, morro de saudade das micaretas e das reuniões de domingo na Atlética, apesar do clima machista do início do séc XXI ser totalmente normalizado. Meus amigos engenheiros são meus amigos até hoje, estamos juntos a quase quinze anos, em Bauru, Maresias, Las Vegas, São Paulo, passando pelo rompimento de muitos namorados e namoradas, casamentos, filhos, tudo não necessariamente nessa ordem. Mas minha cabeça não consigo deixar de me perguntar como teria sido reconfortante ter participado mais das festas hipongas da FAAC, pessoas que agora reencontro com a mesma ideologia, na esquerda, no feminismo atuante, na discussão de gênero.

A faculdade foi um interlúdio louco, quatro anos de liberdade pura para testar quem eu era, até o último, quando a magia começou a dissipar para mostrar um futuro que não era certo porque não consegui me reconhecer e me empoderar nos três anos anteriores. Eu era infantil, e só passaria pela minha primeira prova real com o desemprego de seis meses ao voltar para a casa dos meus pais em Araras, e que só seria superado pelo desemprego que empreendi ao sair do meu primeiro trabalho na publicidade paulistana, e que ia muito bem há quase quatro anos, enquanto por dois anos pulei de freela em freela. Precisei voltar a pedir ajuda ao meu pai e fui obrigada a rever quem eu era, não sem uma grande tristeza muito parecida com depressão me empurrando para dentro do meu quarto. Em agosto de 2013 resolvi mudar para um apartamento sozinha, depois de ter morado com amigas nos últimos nove anos. Era uma urgência incontrolável para me encontrar, mas demorou para que eu mesma pudesse confiar nesse encontro. Corri com a arrumação do que carinhosamente chamava como meu studio, e depois de me sentir feliz com a direção de arte e todos meus livros expostos na sala, encontrei uma tristeza imensa que vem nos abraçar no ócio. Nas crises tentava considerar se não era talvez uma questão de lugar, se não estaria melhor em Araras, ou junto com as minhas amigas, para depois perceber que não havia um lugar que pudesse me separar de mim mesma, e então eu ficava ali na cama, as vezes em posição fetal, as vezes chorando, esperando que a sensação do nada passasse.

Um dia resolvi ir para cozinha e comecei a inventar coisas. Gostei da sensação de não pensar em nada além da combinação de sabores, em cortar coisas e depois limpar a louça. Costumava ir ao mercado e escolher o primeiro ingrediente que via pela frente para decidir o que faria depois. Minha especialidade era o macarrão sem molho, feito com base de alho, cebola e tomate, e o que tivesse na geladeira. Também comia tapioca com banana e canela todas as manhãs, até enjoar. Aquela cozinha que era só minha apesar de ter um fogão elétrico muito fraco - só depois de um ano descobri que ele deveria ser ligado no 220v - foi o meu lugar de fuga. E enquanto criava a comida, e sentia os cheiros, me reconectava com algo que já não lembrava mais, talvez minhas avós. E então passei a chamar as pessoas para me visitarem, cozinhar para elas, e rapidamente o studio se transformou em um lugar quentinho de encontro e comida.  Foi nesse momento que conheci meu marido, depois de muitas derrapadas românticas, e aqueles 38m2 da João Ramalho vão ficar sempre marcados como o lugar onde eu me conheci de verdade. 

Na cozinha havia uma insistência com os vegetais, os temperos, a berinjela reinava firme no meu coração juntamente com o tomate e o manjericão. Descobri novos preparos, curry, a cozinha asiática, Masterchef era meu programa preferido de todos os tempos - ainda é - cheguei a fazer uma campanha e filmar com o Jamie Oliver de quem eu copiava o jeito apaixonado de preparar as coisas com as mãos e de forma quase impetuosa. De lembrar da mágica ácida de um bom limão espremido com a picância de uma pimenta dedo de moça. Meu trabalho me levava a fotografar alimentos, e a estar com chefs renomados brasileiros, e hoje estou aqui, na Catalunya, que apesar do que os independentistas possam dizer, é a Espanha. Aqui o tempero é contido: alho, cebola, azeite e sal. Dificilmente usam ervas ou especiarias, de qualquer forma me coloquei a empreender dois clássicos daqui, as patatas bravas e croquetas, e foi o auge da minha diversão. Me tornei também mezzo vegetariana, priorizando vegetais a carnes, comendo só de vez em quando peixes e ovos. Tirar carne foi como tirar uma distração, percebi a riqueza de combinações possíveis com vegetais e leguminosas, e até mesmo me permito fazer algumas frituras vez por outra. Tem sido muito divertido, o meu corpo curtiu a ideia, meu intestino nem se fale, e os cheiros e sabores passaram a fazer uma festa ainda mais suntuosa no meu paladar.

Não sei o que vai ser de mim, do meu futuro. Tenho escrito bastante, para depois ler, para depois assistir filmes, escrever mais um pouco e cozinhar, mas sigo amando produzir filmes. Não reconheço mais a felicidade histérica da faculdade ou dos fins de semana, vivo pisando em ovos, seguindo pistas e ainda não me encontrei, talvez nunca me encontre. Posso estar enlouquecendo ou posso estar chegando lá. De qualquer forma, tem sido um prazer me conhecer.

Patatas bravas com molho caseiro criado por mim (não acertei na fritura, mas tava delícia)


Aufwiedersehen!!

sábado, 27 de outubro de 2018

O país onde eu cresci não existe mais

Eu cresci em um país bonito, onde as pessoas se tratavam bem e eram sempre simpáticas. Essas pessoas "não queriam incomodar" quando lhe ofereciam um café ou um suco, sempre pediam "desculpa qualquer coisa", como precaução antes de sair, e nunca achavam necessário o presente que recebiam, mesmo quando era aniversário. No Brasil, crescemos evitando dizer o que pensamos e como nos sentimos em uma cordialidade e sensações perenes de paz e ausência de conflito. Nossa "secretária do lar" é praticamente da família, mesmo sendo negra, e "olha que ela é super honesta". Mas não, no país onde cresci não existia racismo, tinha certeza, apesar de mais da metade da população ser negra, mesmo assim, durante os onze anos de estudo em uma escola particular graças ao fato de minha mãe ser professora e coordenadora, ter tido no máximo três colegas negros. Cresci em um país que ama eufemismos como o "politicamente incorreto" da Regina Duarte, e que fazia piada de quem já é fodido, eu mesma já ri, não importa que lá no fundo do meu estômago algo indigesto esquentava. Esse país do palmitão do Danilo Gentili - não, o racismo reverso não existe e não se trata de opinião, trata-se de dívida histórica mesmo. Mas nos últimos anos, talvez cinco, algo aconteceu com meu país. As mulheres pediram Chega de fiu fiu, outro eufemismo que propiciou iniciar um diálogo sobre a cultura do estupro, e a alarmante epidemia de homicídio de mulheres que ousavam dizer não a seus parceiros, fora as que sobrevivem e sobreviveram, estupradas mesmo.  As piadas do Gentili passaram a não ter graça para muitas de nós que tivemos a sorte de encontrar o feminismo, ou graças as amigas queridas que nos levaram para a luz, e também alguns homens e parceiros e irmãos. O Chega de Fiu Fiu que veio do Think Olga, como a Benário, que nos anos quarenta foi entregue grávida de uma criança brasileira para um campo de concentração - gostaria de saber onde estavam os movimentos "pró-vida" - desculpa mas tem que ser entre aspas - e o "Brasil acima de todos", naquela época.

Direciono esse texto a minha pequena bolha, porque quero ser otimista. Essa bolha que me abraça desde que cheguei em São Paulo, a galera do audiovisual, meus amigos de comunicação e artes de Bauru, alguns amigos e amigas de infância. Meus pais, primos e irmãos, que concordam com o meu posicionamento frente a atual onda de polarização política iniciada em 2014, quando pensava que o tal do "Laércio" era o maior perigo frente a tudo que eu acreditava. Venho daqui de longe, reivindicar a vida que construí no melhor país do mundo nos últimos trinta e três anos, pra dizer que acredito no nosso futuro. Perdi muitas batalhas nessa jornada contra o Bolsonaro, uma semana de luto e muito chororô depois de resolver sair de um grupo de amigas de infância. Mais choro e descrença até a decisão de passar a próxima semana um pouco distante das redes sociais, para depois voltar e ler textos enviados "do outro lado", com uma visão crítica do PT do Haddad que já estava enxergando como o salvador da pátria e das criancinhas. Foi um exercício recorrente de pêndulo, de um lado para o outro, para entender que estamos todos juntos, salvo alguns fascistas reais saídos do armário e que por esse acaso de terror 17 ganhamos por tirar de nossas vidas.  

Esse texto deve ser lido hoje, sábado dia 27, antes das eleições de amanhã para decidir o segundo turno do maior cargo executivo do Brasil. Coincidentemente na segunda é aniversário do meu pai, o cara que se filiou ao PSDB ainda em tempos de ditadura, quando o tucano vivia na esquerda. O melhor cara que existe, e que vejo através dos nossos whatsapp videos, sem palavras diante do fenômeno político atual. Um cara que no auge dos seus mais de sessenta anos enxerga a possibilidade de um colapso ambiental frente a concessão amazônica que já está prevista em plano de governo pelo candidato em vantagem em favor dos agropecuaristas (e se você ainda não sabe o estrago que a pecuária faz no mundo, ainda é tempo de assistir Cowspiracy, tem no Netflix). Meu pai acredita que o Haddad e o PT deveriam abrir mão da candidatura e deixar que o Ciro Gomes entre para vencer esse segundo turno a despeito do antipetismo. Não era hora para o PT, e esse risco que eles escolheram correr contra o Brasil deve ser lembrado e cobrado. 

Apesar de algumas pessoas pensarem que já não tenho que dar pitaco sobre a política do país onde vivi mais de trinta anos por estar a quatro meses morando fora, quero dizer que acredito que o país onde eu cresci já não existe mais. Ele é jovem e recém saído de uma ditadura - mais especificamente no ano em que eu nasci, 1985 - e está amadurecendo. Não vamos voltar a ela porque pela primeira vez na vida enxergo um país desperto, o senhorzinho do Engenho está nu, e sim, talvez ele seja eleito amanhã, mas os escravos estão organizados contra o mico que é Jair - falso - Messias. As minorias estão orgulhosas, reproduziram mil placas da Marielle Franco, enquanto o Danilo Gentili faz piada gordofóbica da candidata a vice-presidência do partido que é oposição ao mico. Eles já perderam e isso é só o início da virada. Boa eleição a todos e muito respeito. Dito isso, sou Haddad com Manu vice, e sonho com a representatividade que eles podem oferecer ao melhor país do mundo #13



Aufwiedersehen!!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Arrumação

Há três anos a minha chefe na época, comentou sobre um livro de arrumação de uma autora japonesa que tratava das formas mais bem sucedidas de organizar a casa, e estava muito animada dizendo que o pequeno livro havia mudado sua vida. Apesar de não ter procurado pelo livro então, não pude deixar de ficar impactada pelo "mudar a vida", a ponto de depois de todo esse tempo, morando em outro país, e sem encontrar minha ex-chefe, eu me lembrar disso a ponto de mandar uma mensagem pedindo o nome da mágica japonesa: Marie Kondo.  Não somente porque a minha chefe é uma das pessoas mais organizadas que eu conheço e por isso ter ficado curiosa para saber o que mais um livro poderia ter ensinado a ela, apesar do título auto-ajuda: "A mágica da arrumação: a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida", descobri também que ele chegou a estar na lista de mais vendidos do New York Times com dois milhões de exemplares, mesmo tratando de um assunto que muitas vezes considerado supérfluo. Existe uma máxima que eu acho que é do Elvis, sobre milhões de pessoas não serem todas idiotas, ou algo do tipo que me faz sempre estar fascinada pela cultura pop, é que eu tinha a possibilidade de tempo livre que só os contratempos da imigração me permitiram, e o ócio que ainda quero estudar a fundo, acabou me jogando para esse livro que comecei a ler na segunda, e já senti mexer muito com a minha forma de pensar. Ainda estou em 40% da minha versão e-book, mas já posso adiantar que nas poucas sessenta e tantas páginas (o livro tem 160), pude compreender que a disposição do lugar que você mora faz diferenças razoáveis no jeito que você resolve viver. Me lembrei das tantas vezes em que minhas sensações já rodearam o espaço onde eu morava, como uma grande leveza aos sábados de manhã ouvindo uma música alegre, arrumando a casa, lavando e depois pendurando minhas roupas cheirosas, ou também nas vezes em que fazia essas mesmas coisas, mas para procrastinar um trabalho, só que desta vez gerando frustração 

Marie Kondo trata roupas e meias como se fossem seres animados, enfatizando a necessidade de serem bem dobradas, guardadas e energizadas, o que não parece tão louco se pensarmos que as roupas cobrem nosso corpo todos os dias, e ainda mais em termos de sustentabilidade e durabilidade do produto. O método que ela vem aperfeiçoando desde criança foca na base da nossa existência e na forma como acumulamos tudo. Energia, relações, desculpas, isso sem falar da poeira que vem com tudo isso, para os companheiros alérgicos. O mais interessante é que ela afirma que nunca teve uma recorrência nas consultorias que fez, porque o correto não é precisar arrumar sempre, mas apenas uma única vez e de forma certeira. Pensar eme não precisar mais arrumar nada é uma revolução drástica no modo como gerimos a vida, e nos faz ganhar não só quantidade, mas qualidade de tempo. Vivemos em um momento caótico todos sabemos, eu pessoalmente iniciei esse processo de arrumação e desapego de roupas, sapatos, bolsas e livros no começo do ano para mudar de país, confesso que a quantidade de coisas acumuladas em dez anos de vida em São Paulo foi assustadora, e até hoje, vivendo com o mínimo e muito pouco dinheiro em Barcelona, ainda me pego pensando em abrir mão de outras coisas. A grande questão é que não precisa e nem é para ser assim, precisamos aprender a comprar o que realmente precisamos, e na verdade, como Kondo diz, é algo maior que isso, só mantemos e/ou compramos o que nos faz essencialmente felizes. Isso é profundo e exige um enorme auto-conhecimento. 

Por isso estou guardando o livro com carinho e lendo de forma mais lenta para conseguir pensar muito sobre tudo que ela diz. Hoje decidi organizar as fotos guardadas no meu computador, e além das milhares de repetições e memes que vêm na onda do download do whatsapp, encontrei momentos incríveis, imagens enviadas por amigas e amigos de ex-namorados e namoradas, os bebês que iam crescendo e me emocionando no desktop, as várias selfies que fiz para mim mesma, e ao som de música clássica por indicação da Marie, fui sentindo também um pouco da minha alma sendo reciclada.

Aufwiedersehen!!


                              como não amar essa fada?



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Cozinhar para amar

Isso seria um stories que dentro da minha cabeça acabou ficando muito longo e cheio de sensações, então achei válido transformar em postagem. Ainda mastigo o almoço que acabei de preparar enquanto escrevo sobre ele, e recordo que na adolescência meu prato preferido era o tal do penne com molho branco. Minha mãe tinha uns sete pratos diferentes para fazer no almoço, e apertava o shuffle sempre que podia para variar os pratos e os dias, menos quando meu irmão pedia o rocambole de carne com presunto e queijo, seu preferido, ou minha irmã as batatas fritas com bife acebolado, e pra mim o macarrão. Isso tudo aconteceu antes de eu descobrir a lasanha de berinjela, mas isso é outra história amor romântico verdadeira. Naquela época eu imaginava que o formato da massa fazia com que ela tivesse sabores diferentes, como sabor spaghetti, sabor parafuso, e claro que o sabor penne que eu amava, talvez porque o molho entrava dentro da massa, fazendo com que na hora de morder ele surgisse como surpresa cremosa na boca. E todas essas lembranças vieram porque hoje eu preparei penne com brócolis, tomate cereja, espinafre, e o molho branco. Cozinha é isso!
*Receita no final.

Quando era criança passei por uma fase das trufas, talvez minha única fase doceira. Lembro de ficar até tarde testando novos sabores como chocolate branco e limão, era mágico. Porém, comecei a me aventurar mesmo na cozinha quando fui para a faculdade e fundei uma república em uma casa incrível que custava 900 reais ao mês e tinha uma cozinha delícia com porta para o quintal. Apesar de ainda não ser moda a coisa do chef no início dos anos 2000, mal tinha Internet, o programa mais famoso era o +Você da Ana Maria Braga, criamos o costume de preparar verdadeiros banquetes na na falecida: Viralata. Foram muitas as moradoras, mas a temporada recorrente tinha a Ana (co-fundadora), Regina, Lindsay e a Ana Carol. A Ana, minha eterna roomate e comadre, fazia a "madalena", uma espécie de escondidinho com purê de batatas e refogado de carne moída, simples e fantástico. Foi ela também que copiou da nossa musa Namaria, um dos pratos mais versáteis e elegantes que eu conheço, o macarrão com molho de alho poró e creme de leite (enquanto o macarrão cozinha na água, refogue em uma frigideira azeite e manteiga com um talo grande de alho poró em rodelas, espere amolecer, depois adicione o macarrão, misture, desligue o fogo e acrescente uma lata de creme de leite, queijo ralado e noz moscada = chiquérrimo pra receber uma visita inesperada). Com a Regina aprendi o frango ao curry, outra simplicidade generosa, só refogar o peito de frango picado no alho e cebola, adicionar bastante curry, e por último creme de leite, para comer com arroz branquinho, ela também fazia uma lasanha de batata que eu nunca aprendi a fazer porque tinha muitos processos... A Lindsay fazia o clássico strogonoff quando estava inspirada e eu não trocava a água da garrafinha dela por vodka, e a Ana Carol revolucionou minha vida de caipira apresentando o virado a paulista com bisteca e tudo, antes que eu sonhasse morar em São Paulo. Só para constar, hoje em dia além de não comer mais frango e carne de porco e vaca, considero apelação usar creme de leite nas receitas, mas de vez em quando pode!  

Não tem melhor forma de demostrar afeto que cozinhando, e para mim esse cozinhar precisa ser espontâneo, puro inconsciente, e todo baseado na criação. Minha cozinha surge do que encontro na geladeira, ou da primeira coisa que olho no mercado, combinado com o clima. Comida quentinha como massa para os dias frescos, fresquinha como salada com frutas e vegetais para os dias quentes. Enquanto separo os ingredientes e imagino suas combinações, vou me transformando em alguém melhor, em alguém que vive o presente. Essa pessoa melhor se ama, e por isso é capaz de amar com maior verdade a pessoa para quem está servindo sua comida. Me considero uma boa cozinheira, e acho que cozinhar faz bem para a minha auto-estima, me lembra que eu tenho uma mente criativa e colorida e cheia de referências. Normalmente gosto do sabor do carnaval agridoce da comida tailandesa ou indiana, das nossas ceias natalinas, acho que chegamos no auge do sabor quando combinamos coisas como banana da terra, farinha de mandioca e raspas de limão, mas hoje fui mais pela simplicidade dos temperos espanhóis: aceite, ajo, sal e cebolla. Tá bom, um cadinho de noz moscada no molho porque a vida é curta demais para não usar noz moscada. 

Aufwiedersehen!!




MACARRÃO VEGETAL*
*a foto não faz justiça a essa preciosidade

- 02 brócolis grandes picados;

- 01 cebola picada;

- 03 alhos picados;

- 15 tomates cereja cortados ao meio;

- 01 colher de manteiga;

- Espinafre cortado em tiras fininhas a gosto (lembrem que ele diminui muito quando cozinha);

- Molho: 1/2 copo de leite + 01 colher de farinha de trigo + 01 pitada de noz moscada

- sal a gosto



MODO DE PREPARO
Cozinhar o penne (usei o integral), na água com um pouco de azeite, pode colocar os brócolis nessa mesma panela para dar uma cozinhada antes, corta depois pra facilitar na hora de tirar da panela. Em uma frigideira com azeite refogue primeiro o alho, depois a cebola. Acrescente a manteiga e depois os brócolis picados já um pouco amolecidos no cozimento da água. Tampe um pouco para amolecer mais, mas não muito, queremos que fique al dente. Na sequência acrescente os tomates cereja, mexa um pouco, depois o espinafre picado, mexa mais, adicione sal e por último o macarrão. Mexa bem para que o macarrão pegue o sabor dos ingredientes, e tampe a panela por cinco minutos no fogo baixo, sempre mexendo para não grudar.  Desligue e prepare o molho branco.

MOLHO
Essa é uma receita basicona pra bechamel (nome chique do molho branco). Esquente o leite no microondas mesmo, para que fique um pouco quente, acrescente a colher de café de farinha de trigo, misture bem e volte para a panela com manteiga mexendo sem parar até engrossar. Quando engrossar desligue o fogo e acrescente o sal e a noz moscada. Jogue o molho na panela com o macarrão e seja feliz!



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Sobre dor


Texto encontrado hoje e escrito em algum momento no início de 2017.

"Pegue sua dor e transforme em arte", disse Maryl Streep na cerimônia do Globo de Ouro, e eu me pergunto, existe outra forma de criar senão pela frustração de quem por aquele momento não sente ânimo? O próprio palhaço sofre de depressão.

Ontem estava voltando de mais uma das infinitas vinte sessões de fisioterapia que preciso frequentar, mas meu joelho mal dói, mas a ressonância alertou sobre o estrago nas cartilagens e o médico foi enfático: isso pode virar artrose na velhice! Que tipo de velha eu vou ser nessa acumulação recorrente de problemas? 

Eu só queria ter o começo da manhã para nadar, mas a fisioterapia me toma todas elas!), e a gordura que eu não sei de onde vem se acumula sem ser importar com a quantidade de folhas verde escuro que eu consumo. Minha alegria é quando durmo e não penso além dos sonhos. Quando como e quando tomo uma cerveja, para no dia seguinte odiar o reflexo que vejo no ponto do ônibus por trás dos anúncios que eu produzo. Ao meu lado uma senhora lamenta ao telefone: "tem que trabalhar, tem outro jeito?".

Aufwiedersehen!!