Com coragem olhou para o relógio. 11:48h. A TV ainda participava da trilha matinal, enquanto os olhos nem fechados nem despertos insistiam não tomar decisão alguma. O estômago roncou. Um emaranhado de fios e poeira alçava vôo do chão da sala. Chega. Ela colocava com força desnecessariamente enfática os móveis em cima dos sofás. Cadeiras eram jogadas com cuidado abrupto sobre a mesa. Vassoura, tosse, pano, e o cheiro reconfortante da hortelã brigava com o barulho dos ônibus incansáveis do lado de fora. As roupas sentiam-se amassadas. Ferro, fogo, dobras. Do quarto pessoas conversavam aleatoriamente na sala. A TV era posta pra dormir. Era ela agora que precisava ser arrumada. O interruptor do chuveiro dizia inverno, e ele estava certo, mas ela precisava do frio escorrendo, mudou contra a vontade para a função verão. Arrepios desagradáveis, os olhos decidiam-se, queriam despertar. Já provida de sua toalha nova, que por isso não sabia direito enxugar, pensou naquele vestido. Sua mãe o havia comprado para um casamento, ele tinha essa estampa geométrica, que ela achou levemente informal para tal cerimônia. O vestido era bonito, e com ele tentou sair para a rua num dia qualquer, só que ele aparecia-se muito formal para o dia a dia. Talvez ele servisse para um dia como aquele. Vestiu-o e do espelho não conseguia decidir quem era e se servia àquele lugar barulhento. Uma sirene qualquer passou rapidamente pela rua, ela sentiu que respirava, respirou fundo para conferir e saiu.
Aufwiedersehen!
E tem mais...
(...)
Um monte de coisa misturada..
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
09 de janeiro em outro lugar
O viajante na maior parte de sua vida precisa trabalhar, e por isso acaba por perder a perspectiva do momento e por consequência a esquecer-se de onde está. Aí, em dado momento, ele retorna para o “no man's land” e começa a pensar o que quer da vida, mas o movimento o atrapalha como aquele vento que sacode o cabelo no rosto. Ele não é mais João, Pedro, Maria, de repente ele é brasilero. O viajante é sobretudo um malagradecido. Assim mesmo, tudo junto como dizem nossos avós MALA-GRA-DE-CIDO!Gosto de dizer que sou um desses, uma aventureira, que sinto claustrofobia, aracnofobia, cleptomania, ou seja lá o que for em lugares fechados, que me repugna a rotina. Tudo falácia! O malagradecido é antes de tudo um sujeito esquecido. Esquece que tem saúde, boa família, um teto. Que ele faz? Procura sarna pra se coçar! Estou na capital da Argentina, sentada na colorida sala de um prédio pintado em vermelho queimado, onde a luz entra sem pedir licença e aqui permanece até às 21h, veja lá que audácia! Daqui de minha cadeira, abóbadas de prédios antigos multicolores, todos têm um grande alfinete que aponta para o infinito sobre nossas cabeças. Conheci uma duzia de pessoas ou mais de todo lugar, conversei no meu inglês da adolescência, e até ensaiei alguns discursos no espanhol vizinho com aquele x ordinário argentino que vai no lugar do r, e que eu insisto em não aprender, por que parece que eles insistem em escrever o meu português errado! Sinto-me feliz por que viajo, percebo a saudade da intimidade muitas vezes incoveniente do cotidiano, das ligações de madrugada, das responsabilidades enfim...Dou um gole na minha Quilmes e preparo-me para mais uma noite de sofrimento em Buenos Aires, para tentar ser menos malagradecida.
Aufwiedersehen!!
Aufwiedersehen!!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Um último suspiro do passado
2010. O que me aconteceu nesse ano? Nada praticamente. Na realidade, tudo. Final de ano se parece muitas vezes com uma soma de “mal agradecimentos”, pelo menos no meu caso. Existe ainda a comparação. Em 2009, só nesses 12 meses, boa parte deles, oito, vivi em outro continente, em um país que já se parecia muito com uma casa, daquelas bem arrumadas, com pessoas sóbrias e diferentes de onde você vem, mas um lugar ainda menor dentro desse continente foi conquistado a muito custo. Onde foi parar esse ingrediente físico da adrenalina, da luta contemporânea pela sobrevivência? Por que a nossa vida vale a pena? Eu penso que é por que não existe marasmo, o nosso organismo pede mais, daí nossa insatisfação perene, que nunca sai, ta sempre lá coçando por dentro, fazendo com que pareça que a gente não valoriza o que temos. Não tem essa de consciência. Somos assim.
Em 2009 tudo era magistral, evento generalizado, um acontecimento. Eu não me dou muito com pequenas reuniões, eu quero fogos de artifício, como os que vi brigando pelo espetáculo da passagem do ano com a neve em 2008, no inverno do outro lado do oceano. Aquela intuição de que aquele ano de 2009 ia ser maravilhoso se comprovou. Eu era a heroína (pelo menos de mim mesma), que regressava de uma jornada pessoal vitoriosa. Eu realizava o sonho de voltar e abraçar minha família e amigos de sempre e eu podia abraçar o mundo. Naquele mês de agosto, quando completava 24 anos nada era impossível, tentar um lugar em uma área que não era a minha de formação profissional era um chute, que depois de um mês foi concretizado, eu tinha um emprego!Depois de três meses eu morava em um apartamento exatamente como eu imaginava, com duas amigas amadas. Eu começava a minha vida.
2010. A passagem de ano dessa vez olhando o mar, sentindo a chuva e o calor, foi diferente. Eu sentia a tal da adrenalina se esvair aos poucos. Estabilidade. Essa é a palavra desse ano. Recolhi-me, trabalhei, estudei Cinema, estudei Literatura, voltei pra natação, inércia. Todo movimento tende a continuar o que começou sem mudar de direção, ou algo do tipo. Estabilidade que leva ao acomodamento, que leva ao conformismo, preguiça, conforto. Eu amadureci. Tem coisa mais chata que isso?
Aufwiedersehen!!
Em 2009 tudo era magistral, evento generalizado, um acontecimento. Eu não me dou muito com pequenas reuniões, eu quero fogos de artifício, como os que vi brigando pelo espetáculo da passagem do ano com a neve em 2008, no inverno do outro lado do oceano. Aquela intuição de que aquele ano de 2009 ia ser maravilhoso se comprovou. Eu era a heroína (pelo menos de mim mesma), que regressava de uma jornada pessoal vitoriosa. Eu realizava o sonho de voltar e abraçar minha família e amigos de sempre e eu podia abraçar o mundo. Naquele mês de agosto, quando completava 24 anos nada era impossível, tentar um lugar em uma área que não era a minha de formação profissional era um chute, que depois de um mês foi concretizado, eu tinha um emprego!Depois de três meses eu morava em um apartamento exatamente como eu imaginava, com duas amigas amadas. Eu começava a minha vida.
2010. A passagem de ano dessa vez olhando o mar, sentindo a chuva e o calor, foi diferente. Eu sentia a tal da adrenalina se esvair aos poucos. Estabilidade. Essa é a palavra desse ano. Recolhi-me, trabalhei, estudei Cinema, estudei Literatura, voltei pra natação, inércia. Todo movimento tende a continuar o que começou sem mudar de direção, ou algo do tipo. Estabilidade que leva ao acomodamento, que leva ao conformismo, preguiça, conforto. Eu amadureci. Tem coisa mais chata que isso?
Aufwiedersehen!!
domingo, 26 de dezembro de 2010
Cidão
Era uma janela aberta. Do lado esquerdo a imagem de uma santa. Ouço minha mãe aconselhá-la sobre a ceia, que participe, que esteja, mesmo a despeito da vontade. Minha vó em frente ao companheiro de mais de meio século deitado na cama, um homem guloso da vida que agora se alimenta por uma sonda que insiste em incomodá-lo no nariz.Essa senhora quase octagenária veste a camisa rosa listrada que acaba de ganhar. Seus olhos, os quais eu gostava de descrever orgulhosa quando criança serem verde piscina, brilham no bom humor desse rosto que teima ser belo. No chão chinelos modernos contrastam com a madeira que cobre a casa que na infância serviu de morada para as nossas brincadeiras de esconde esconde e a gritaria dos primos. Ele, agora deitado em um sono que não imaginamos, esbravejava na época, ele podia e queria assistir a televisão. Ele chama por alguém. Meu irmão? Não entendemos, não há o que entender. O homem forte, progenitor, o patriarca é vencido pela vida, dizem que pelo cigarro. Ficamos a contemplá-lo com uma nostalgia besta, daquelas que nós ingênuos que somos, sentimos ao ignorar (ou esquecer), o triunfo que foi, que é, estar e ter. Ele continua...
Aufwiedersehen.
Aufwiedersehen.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Terça de manhã - conto
Tenho me surpreendido em como alguns (ou a maioria), dos textos tendem a melhorar com o tempo deles. A gente escreve de uma vez, e deixa o doc. lá no desktop, esquecido mesmo, e depois de um tempo o re-lê e re-descobre com alguns ajustezinhos sempre necessários. Depois de toda essa propaganda ergo as expectativas pra esse conto que escrevi um dia desses...
Eu perdi a noção! Meu desconfiômetro já era! Acordei contrariando as leis da medicina para o bem viver do meu corpo. Comi a pizza da véspera!Sim, esse foi o meu café da manhã. Dois pedaços previamente aquecidos nas microondas com todo aquele catupiry curtido do dia anterior, escorregando em cima do vidro redondo suporte. Sim, coloquei a pizza desse jeito, sem prato, sem pano, sem nada, sozinha dentro do aparelho. E Levei na mão, andando pela casa. Liguei o rádio, tocava algum tipo novo de funk, e eu que pensava que não tinha como eles falarem ainda mais palavrões. Pizza em uma mão, e um copo com coca-cola sem gás na outra. Dancei, agachei até o chão, e quando vi, a janela do vizinho estava aberta junto com a minha. Ri alto, mais alto que o MC com nome no diminuitivo. Olhei o relógio da cozinha, cinco minutos pro horário limite que me impus - há cinco anos esse era o timing para sair de casa para chegar em ponto no trabalho. Lembrei de uma coisa, esse relógio é adiantado!Exatos 10 minutos, enganação subjetiva a que me colocava todo santo dia meu Deus! Esperta me senti por lembrar disso justo hoje, por que noção já não tenho mais, eu ainda tenho 10 minutos pra mim! Joguei a borda da pizza que já não me agrada no lixo, não me custa nada. Lambi meus dedos do resto do catupiry, desliguei o rádio. Pensei em um banho, olhei pra banheira. Uma peça bonita, dava ar sofisticado pro banheiro. A banheira do banheiro que eu só usei uma vez, quando eu e ele chegamos da lua de mel. Que safada que eu fui naquele dia! Não parecia eu, não parecia o que eu acabei sendo, cheia de responsabilidade, cheia de rotina e horário. Dizem que brasileiro é desorganizado, largado, atrasado, quisera eu ter um tiquinho disso que fosse na minha vida. De tanto me organizar, ta ai meu resultado, uma bela banheira branca, nem acumular o pó que lhe é digno, por que deixar sem limpar não deixo. Pois bem, peguei lá embaixo do meu armário as essências que eu ganhei no aniversário de dois anos atrás, sem saber direito, joguei tudo com água quente, e vi logo que era impossível não acertar. Entrei. Senti cada molécula do meu corpo, tenho certeza. Deixei estar ali, quando lembrei de uma foto de revista, de uma mulher com uma taça na banheira. Fiquei louca de vontade de fazer isso, assim, em uma terça de manhã, eram tantas as deliciosas infrações! Corri nua, ensaboada, com espuma pelo apartamento, arranjei uma taça com vinho (a champagne tinha ido na última vez que comemorei como minha mais uma promoção dele, e de que me adianta, agora que ele estava com outra, e eu podia perder a minha noção). Voltei, tomei um gole e me toquei, e me lembrei novamente de mim. Esqueci da noção, mas precisei lembrar dela, o celular tocava, logo a campanhia tocava, e eu precisava sair.
Aufwiedersehen!
Eu perdi a noção! Meu desconfiômetro já era! Acordei contrariando as leis da medicina para o bem viver do meu corpo. Comi a pizza da véspera!Sim, esse foi o meu café da manhã. Dois pedaços previamente aquecidos nas microondas com todo aquele catupiry curtido do dia anterior, escorregando em cima do vidro redondo suporte. Sim, coloquei a pizza desse jeito, sem prato, sem pano, sem nada, sozinha dentro do aparelho. E Levei na mão, andando pela casa. Liguei o rádio, tocava algum tipo novo de funk, e eu que pensava que não tinha como eles falarem ainda mais palavrões. Pizza em uma mão, e um copo com coca-cola sem gás na outra. Dancei, agachei até o chão, e quando vi, a janela do vizinho estava aberta junto com a minha. Ri alto, mais alto que o MC com nome no diminuitivo. Olhei o relógio da cozinha, cinco minutos pro horário limite que me impus - há cinco anos esse era o timing para sair de casa para chegar em ponto no trabalho. Lembrei de uma coisa, esse relógio é adiantado!Exatos 10 minutos, enganação subjetiva a que me colocava todo santo dia meu Deus! Esperta me senti por lembrar disso justo hoje, por que noção já não tenho mais, eu ainda tenho 10 minutos pra mim! Joguei a borda da pizza que já não me agrada no lixo, não me custa nada. Lambi meus dedos do resto do catupiry, desliguei o rádio. Pensei em um banho, olhei pra banheira. Uma peça bonita, dava ar sofisticado pro banheiro. A banheira do banheiro que eu só usei uma vez, quando eu e ele chegamos da lua de mel. Que safada que eu fui naquele dia! Não parecia eu, não parecia o que eu acabei sendo, cheia de responsabilidade, cheia de rotina e horário. Dizem que brasileiro é desorganizado, largado, atrasado, quisera eu ter um tiquinho disso que fosse na minha vida. De tanto me organizar, ta ai meu resultado, uma bela banheira branca, nem acumular o pó que lhe é digno, por que deixar sem limpar não deixo. Pois bem, peguei lá embaixo do meu armário as essências que eu ganhei no aniversário de dois anos atrás, sem saber direito, joguei tudo com água quente, e vi logo que era impossível não acertar. Entrei. Senti cada molécula do meu corpo, tenho certeza. Deixei estar ali, quando lembrei de uma foto de revista, de uma mulher com uma taça na banheira. Fiquei louca de vontade de fazer isso, assim, em uma terça de manhã, eram tantas as deliciosas infrações! Corri nua, ensaboada, com espuma pelo apartamento, arranjei uma taça com vinho (a champagne tinha ido na última vez que comemorei como minha mais uma promoção dele, e de que me adianta, agora que ele estava com outra, e eu podia perder a minha noção). Voltei, tomei um gole e me toquei, e me lembrei novamente de mim. Esqueci da noção, mas precisei lembrar dela, o celular tocava, logo a campanhia tocava, e eu precisava sair.
Aufwiedersehen!
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