E tem mais...

(...)

Um monte de coisa misturada..

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Uma mala que não foi perdida


Viajamos no final do ano para a casa da minha irmã em Lyon, e eu exagerei um pouco no tamanho da mala correndo um risco consciente de ter que pagar um extra caso fosse necessário despacha-la. Claro que o voo era low cost e só permitia mala de mão, pensava que esse conceito era totalmente abstrato a não ser que você estivesse com uma super mala de rodinhas, mas descobri na hora de embarcar que eles literalmente têm uma protótipo do compartimento superior do avião para que você tente fazer caber a sua mala que no seu entendimento seria de mão. Não era, mas consegui escapar dessa sem custo extra, glória a Netuno, ou ao deus do vento, do ar, dos voadores. Uma vez devidamente sentados em nossa poltrona, a minha ao lado da janela, relaxados por termos evitado outro gasto em nossas vidas já tão carentes de dinheiro, meu marido perguntou se havia algo de valioso na mala, porque “vai que…ela extravia”. E enquanto ele fazia a pergunta, acontece isso entre os casais algumas vezes, já imaginamos o que eles vão perguntar antes ou durante o momento em que eles fazem uma inquirição, e enquanto ele a fazia, um sorriso sereno perpassava meu rosto, porque o pensamento era sereno. Caramba, pensei, deve ser essa a sensação de desapego tão pregada pelos livros de auto-ajuda. Não é que não havia nada de valioso naquela mala, meu quimono vinho e azul marinho que comprei por trinta reais em um brechó coletivo plus size e que eu costumava usar para dar um ar dramático ao look, e nessa viagem levei só para usar como um tipo de roupão chique dos filmes enquanto estivéssemos dentro da casa da minha irmã com a devida calefação. Minhas botas caramelo de vinte euros e alguns anos estavam lá também, uma delas com a sola descolando de novo, mas que já me haviam protegido muito do frio. Fora isso um vestido antigo, algumas blusas de frio para usar embaixo, meias velhas, era resumidamente tudo velho mesmo, e muito querido. A própria mala era super velha, uma falsa mala de rodinhas que na verdade era uma mala mole normal, que parece ter sido artificialmente transformada em mala de rodinhas, com um zíper que não funcionava mais em um dos bolsos. A cor era um marrom de papel reciclável, uma mala de perdedores como nós, mas no bom sentido. Essa mala não somente não foi extraviada, como foi uma das primeiras a aparecer orgulhosa, a pobre, no rolo de malas. A segurei com carinho, como a um cachorrinho vira-latas muito velho que ainda consegue chacoalhar o rabinho. Eu era aquela mala, e acho que deve existir algum aprendizado no paradoxo que é nunca ser roubado ou perder coisas velhas e sem muito valor econômico. O universo deve valorizar os objetos despretensiosos. 

Aufwiedersehen!!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sinceros, devaneios, Barcelona!!


Meu melhor amigo comprou passagem para vir para a Europa, e me pediu para fazer uma lista de lugares imperdíveis para visitar em Barcelona. No paralelo, comentei no facebook sobre a necessidade de desmistificarmos a vida aqui, e me pediram para aprofundar mais nesse tema. Já escrevi várias vezes em torno desse tema da desglamourização da vida fora do Brasil, mas nunca vou muito além porque costumo me sentir um pouco ridícula por estar vivendo pela segunda vez essa experiência, como aquele cara branco hetero que diz sofrer com o feminismo ou por ser bonito demais, ou pior ainda, me sinto ingrata pelas oportunidades que tive. De qualquer forma, e como um sincero devaneio que é meu, vou tentar me aprofundar, e como diriam os espanhóis, ¿Me explico?

Quando eu conheci Barcelona em agosto de 2009, me apaixonei pela cidade como boa parte das pessoas que já estiveram aqui um dia. Ela é quase sempre ensolarada, arborizada, com grandes ruas largas e confortáveis para caminhar no terreno prioritariamente plano, além das muitas praias disponíveis no centro da cidade com acesso super simples a pé ou de metrô, ônibus ou trem. São quatro as praias que ficam na cidade: Barceloneta, Mar Bella, Bogatell e Nova Icaria. Sendo a primeira a mais comumente escolhida pelos turistas e sempre super lotada, vai gradualmente diminuindo a quantidade de pessoas por metro quadrado até chegar na mais tranquila que eu acho que é a Nova Icaria. Vale enfatizar que em Mar Bella o público alvo é LGBTQ± e rola uns nudes além do tradicional topless feminino super liberado na Espanha. Interessante saber que Barcelona não era super badalada assim até o final dos anos 80, ela foi descoberta como um dos maiores destinos turísticos depois da revitalização realizada para as Olimpíadas de 92, e que segue trazendo frutos para a cidade até hoje.          


Eu cheguei aqui nove anos depois e casada, no auge do verão, e apesar de todos os problemas que já contei aqui, como o atraso ao marcar a Cita para entrega dos meus documentos*, e a fascite plantar*2, eu pude conhecer mais ou menos bem as opções de praias fora da cidade, fugindo um pouco da lotação tradicional de verão e dos turistas, coisa que eu deixei de ser logo que fui empadronada*3 na cidade. Minha praia favorita fica na cidade de Badalona (foto), a vinte minutos de trem mais ou menos de Barcelona dependendo de onde você sai, mas também tem antes San Adriá de Besos, depois Mongat também com nudes, e pro outro lado tem uma das que eu mais curti, Ocata, mas nela você paga uma taxa extra pra chegar de trem porque fica em outra zona (a taxa extra é de uns 2 euros, não descubra da pior forma sobre isso levando como uma multa, como nós levamos - 50 euros!). Todas elas têm acesso super simples via trem ou metrô, só precisa cuidar com o passe de trem/metrô/bus, sempre usamos por aqui o T10, que dá direito a 10 “corridas” por 01 euro cada, com integração no espaço de 100 minutos, se for comprar individual custa 2,20. 

                                              


Além das praias tem o Parque Ciutadela, outro lugar bem gostoso pra curtir o dia de sol, e que fica entre a Avenida do Arco do Triunfo que é bem bonito (foto), e o bairro de Born (foto abaixo), que é o começo do centro, uma espécie de Vila Madalena/Pinheiros de Barcelona, bem fofo e hipster, e ao lado dos bairros mais darks e zonas mais perigosas - no conceito europeu de violência - tem o Gótico e Raval, com suas ruas super estreitas onde fica fácil se perder, e lembra muito a vibe da rua Augusta de São Paulo. Aqui é muito difícil ter assalto a mão armada, mas rolam MUITOS furtos, de celular especialmente. Acontece que não adianta chorar, porque se o furto for de um valor inferior a 400 euros, a polícia nem vai atrás de averiguar. 

                                       

                                       

Aqui não é autorizado beber na rua, mas é aceito beber na praia e no parque, onde você tem acesso a cerveja e sangrias através da simplificação do termo “paquis”, que vem de paquistaneses ou qualquer homem com ascendência árabe mesmo, gritando seu famoso hino “Cerveza, Beer!”. Em Barcelona as pessoas são muito bem divididas, estereotipadas oficialmente: “Chinos”, são os chineses que dominam dois comércios, os bares com tapas espanhóis que eles reproduzem muito bem (tortilla, ensaladita russa, patatas bravas, olivas e pan con tomate), e os bazares que são espécies de 1,99 2.0, com TUDO que você possa precisar. Eles são mesmo incríveis, e estão quase sempre abertos, diferentes dos comércios nativos que fecham para a siesta (14-16h), ou o mês de agosto inteiro mesmo. Aliás, nada funciona em Agosto aqui. Os “paquis”, além de venderem cervejas, tem os supermerkats, que são mercadinhos abertos até mais tarde e aos domingos  (tudo fecha na Espanha aos domingos), para vender bebidas e produtos de mercado mais rápidos, um tipo de conveniência. E claro, existem os "sudacas", que somos nozes, mas nem tanto, os brasileiros são uma categoria a parte, apesar de não encontrar tantos por aqui. Acho incrível a oportunidade de conhecer mais sobre os países latino-americanos, aqui tem uma amostra de cada um deles, e meu sonho é um dia reconhecer cada um dos sotaques castellanos. 

Descobri esses dias que Barcelona é praticamente do tamanho de Campinas, com 1.5 milhão de habitantes, e como extensão realmente é bem fácil de conhecer, as ruas principais cruzam a cidade, com uma pegadinha que é a Diagonal, uma avenida enorme que cruza, como o próprio nome explica, a cidade diagonalmente, fazendo com que a gente tenha que andar um tanto quase em círculos toda vez que vamos atravessar uma rua em linha reta (foto). Os bairros mais conhecidos e centrais são: Poblesec, Eixample, Grácia, Born, Raval e Gótico. Eu morei em dois bairros que são considerados meio “periferia”: Clot e Sants.

Impossível andar em linha reta

Quando estava para vir pra cá algumas pessoas me falaram que se eu não soubesse o catalão eu estava ferrada: mentira. Outras pessoas me falaram que não é um bom lugar para aprender castellano: verdade. Me explico, as pessoas daqui falam igualmente o catalão e o castellano, então você vai se virar super bem com o segundo, mas realmente toda a comunicação da cidade é em catalão, e mesmo que eles falem castellano, não é o castellano da norma mundial, e é cheio do sotaque catalão, com expressões que só existem aqui. Tem sido realmente difícil evoluir na língua porque as pessoas tendem a misturar as duas línguas em uma conversa normal, super tranquilo! Pra quem fala inglês fluente é muito fácil conseguir emprego em Barcelona, é com certeza um diferencial ainda maior que no Brasil.


Sobre as principais atrações do arquiteto mais famoso do mundo, eu acho, Antoni Gaudí, temos a Sagrada Família que fica em Eixample, e que ainda está em construção e pretendem terminar em 2020, e cuja entrada vale uns 28 euros que você deve comprar com antecedência pelo site. Não, eu ainda não entrei na catedral, mas não vejo a hora de poder dispor dessa quantia para conhecê-la, todas as pessoas que entram não se arrependem, mas de qualquer forma é um espetáculo vê-la por fora, eu nunca enjoo. Depois da Sagrada Família você pode caminhar vinte minutos até o Passeig de Grácia que é como a Champs Elysée, com todas as lojas fodonas, e tem a La Pedrera e a Casa Battló. Não, não entrei em nenhuma das duas também, mas as entradas podem igualmente ser compradas em cada um dos respectivos sites super informativos. Por último e MUITO importante tem o Parc Güell, que eu entrei em 2009, uhuuuuu, e na época não paguei nada, mas que hoje tem uma parte restrita a visitação por 8 euros que você pode comprar na hora, mas aconselho a comprar antes porque esgota rápido e as turmas vão sendo postergadas para mais tarde sucessivamente.

                                         

Fora o circuito Gaudí há o Castelo de Montjuic com uma vista incrível da cidade e onde fica também o Museu da Catalunha, você pode entrar e fazer o caminho que é uma subidinha meio pesada pelo centro da cidade, ou pela Plaza España que nos oferece escadas rolantes maravilhosas para dar uma forcinha. Barcelona tem vários museus, como o CCBB com vários eventos, fora isso há centros culturais e atividades gratuitas na rua quase todo fim de semana, no verão (Junho-setembro), é praticamente todos os dias.                                     

É uma cidade razoavelmente barata para visitar se você curtir ficar na rua de boa e comer nos chinos e comprar a bebida nos paquis para tomar a cerveja na praça, como a Plaza del Sol em Grácia. A hospedagem é cara, e qualquer restaurante ou bar perto de Barceloneta ou do Passeig de Grácia, ou da Plaza Sant Jaume é um roubo, evite! Eu amo a Plaza central onde fica a catedral de Barcelona que é estilo gótico como o bairro, que tem horários de entradas gratuitas e é de tirar o fôlego. E sempre tem alguma coisa rolando por ali, nem que sejam artistas de rua tocando jazz.

Aqui um vermuth antes do almoço do domingo faz ficar pensando melhor, e custa de 1.7 a 3 euros


O lance da desglamourização eu ainda não consigo elaborar claramente, então vou simplifica-lo com dicas para quem quiser morar fora: vá com um propósito pré definido, seja ele um curso, um trabalho, um voluntariado, tenha algum ponto de partida. Viemos apenas com o passaporte do meu marido, e o que parecia fácil por ser esposa de espanhol, me deixou por seis meses praticamente no ostracismo, eu realmente tive que lutar muito contra uma depressão por não ter papel, não ter um propósito, então não adianta ter o documento e algum dinheiro, minha opinião, venha com um propósito, tenha um projeto que te mantenha próximo de quem você é, que seja fazer entrevistas com os gringos que vivem na cidade, porque é muito fácil se perder sendo imigrante. 

¿Me explico?

Aufwiedersehen!!

*Cita é um dos termos mais usados em espanhol, é literalmente um horário, um agendamento, mas pode ser usado também para "encontro", horário no médico, enfim, tudo que se refere a agendamento;

*2 Fascite plantar é uma inflamação na fascia que é um tecido que fica na base da musculatura do pé, que dá uma dor excruciante principalmente no ser humano que sofre disso ao acordar, e que se deve ao uso incorreto de sapatos, os flats são os maiores vilões, e também sobre peso não ajuda, muitas grávidas sofrem disso. Para curar é só a base de fisioterapia, muita massagem com uma bolinha tipo de tênis, todas as horas, compressa de gelo e reza braba. Pra evitar POR FAVORZINHO não usem sapatos planos para caminhar!!!!!! Não cometam o mesmo erro que eu! Saltos médio quadrados são ótimos para os pézinhos, além de tênis, claro!

*3 Empadronamento é o ato de uma pessoa que tenha um imóvel em Barcelona em seu nome, pode ser alugado, assinar um documento como que se "responsabilizando" por você na cidade, é mais um convite de entrada mesmo, e ele serve para dar entrada em qualquer documento oficial.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Leve demais


Antes de começar a escrever esse texto, como sempre, fiz questão de organizar esse layout que deve ser justificado - nada mais calmante que um texto justificado - com uma fonte diferente de Arial porque ninguém merece escrever em Arial um texto super sincero - escolhi a despretensiosa e limpa Helvetica - e por último defini o espaço entre linhas para 1,5. Isso tudo não sem antes fazer novamente um esforço imenso para acordar, chocar minha retina com a luz das minhas quatro redes sociais, 10% no decadente facebook, 15% no old but gold twitter, 20% Linkedin e os últimos 55% no queridinho porém ordinário, Instagram, para finalmente despertar e sair da cama às 10:30h, quase sempre por uma vontade incontrolável de mijar. Volto para a cama, abraço e sinto o cheiro amanteigado da nuca do meu marido, e só então me levanto de verdade para tomar minha água com limão espremido e preparar o café.
Hoje comecei a preparar o almoço na hora do nosso desayuno porque ele teria uma prova de trabalho às 13h. Estamos devendo para os meus pais e agora para o banco, mas nos consideramos na maioria do tempo vencedores, porque as coisas não sucederam nada como imaginávamos por aqui, na imigração. Já se passaram cinco meses sem que eu possa trabalhar, normalmente eu que tenho sido nossa principal fonte de renda, e meu marido já teve uns quatro trabalhos entre uma crise existencial profissional e outra. Eis que em duas semanas chega o agendamento para a minha entrega de documentos para enfim areglar los papeles, não serei eu em breve mais um membro desse grupo vasto de sin papeles na bela Barcelona.

E enquanto preparava o almoço para ele, minha comida preferida, macarrão sem molho com o que sobre na geladeira, literalmente o que sobra porque vamos mudar de apartamento amanhã, sentia uma pequena chama de ânimo aquecer meu peito que andava frio e seco desde ontem por motivos distintos que foram enfatizados por uma cólica feroz. Aliás, antes da cólica eu havia colocado de forma errada o meu coletor menstrual, e no metrô sentia o sangue vazando como uma lembrança sórdida da adolescência, até me lembrar que sou feminista hoje, e também adulta, e que o sangue celebra a nossa natureza divina feminina. Apelar pra natureza selvagem sempre ajuda e faz sentido.

Comecei a guardar minhas roupas na mala desde segunda, hoje é sexta. Não me lembro quando me tornei essa pessoa tão cheia de manias e de uma organização quase neurótica, mas talvez eu esteja de novo sendo muito dura comigo. Arrumar as coisas, ou deixar tudo preparado com antecedência me traz uma sensação de tranquilidade, como se encontrasse vestígios do futuro enquanto organizo as coisas que levo comigo. As louças sujas na pia, ou principalmente a cama mal arrumada da noite anterior, gritam, tenho certeza. Não é possível conversar com o futuro em uma casa mal arrumada. Estou lendo Carolina de Jesus do Quarto de Despejo, e penso que ela não tinha esse luxo de arrumar as coisas, ou nem mesmo o presente do silêncio, com as brigas frequentes na favela onde não existe o particular, tudo é público. Dizem que ajuda pensar nas pessoas que estão em piores condições que você quando se sente triste, mas sempre achei isso um pouco cruel. Eu fico ainda mais triste pelas Carolinas, e sinto um pouco de asco das minhas preocupações que precisam ser legítimas para que eu sobreviva.

A cabeça humana é louca. Estava falando com meu marido esses dias sobre como essa experiência nossa de desapegar tem sido estranha. Primeiro desapeguei do meu trabalho, depois de muitas roupas, móveis, livros, nosso apartamento, nossa cama. Depois minhas amigas, São Paulo, nossa família, até que restaram nós dois e algumas malas. Lembrei do Milan Kundera e meu livro preferido nunca fez tanto sentido, “A insustentável leveza do ser”. Tive uma experiência muito gráfica da leveza em um grupo de meditação que estivemos, recebi a diksha de três pessoas com quem me conectei rapidamente, e por alguns segundos não senti o meu corpo. Foi como uma sensação geral de formigação sem a sensação da formigação, e naquele momento percebi que estaria ok morrer. Eu não era aquele corpo. Esse pensamento tem me assustado, como se eu estivesse vendo com clareza e de longe, leve demais.

E com a quase organização final dos meus papéis vem a expectativa de voltar a trabalhar, e o pensamento sobre o que eu gostaria de fazer. Foram seis meses com formato de anos, e me parece bobo voltar a me dedicar integralmente a publicidade e ao atendimento ao cliente, mas se não for isso, o que?

Aufwiedersehen!!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

De Kéfera a Ministra Damares e os desafios da sororidade

Ver notícias ridicularizando a futura ministra e pastora evangélica Damares Alves na minha timeline do facebook tem me levantado um sinal de alerta, na verdade mais do que um alerta, uma sensação de deja vu mesmo. Há cerca de dois anos na época do impeachment da Dilma, outra figura rondava ininterruptamente as nossas timelines e ele veio a se tornar presidente do Brasil. Quando começamos a nos sentir tão superiores e viciados por esse sensacionalismo? Quando perdemos a direção do movimento de esquerda pelo social, pela integração e luta por direitos iguais para todas as pessoas, para essa necessidade de se provar tão lúcida diante dos fatos? Acho que depois do show de horrores que foi essa eleição, está claro que não existe valor moral superior para quem está na esquerda ou na direita. Claro, como alguém que se identifica com a esquerda, podemos correr o risco de nos sentirmos superiores porque por conceito "olhamos para o mais fraco", mas isso é tão abstrato, tão abstrato quanto um tweet nervoso. Escrevo sobre isso porque não sei vocês, mas não me ajudou em nada pensar que eu era superior a quem votava no Bolsonaro ou muito menos focar no HORROR, o HORROR de tudo o que ele diz, o RIDÍCULO. Estamos falando com as paredes, ou melhor, estamos circularmente adoecendo uns aos outros. 

Quebrando o tabu que é uma das páginas mais acessadas e de referência de luta pelos direitos humanos no Brasil sempre foi um lugar de encontro, de ideias, sempre me representou. Mas nos últimos meses tenho pensado seriamente em parar de segui-los. É uma notícia mais infeliz e sensacionalista atrás da outra. Crianças sendo estupradas e esquartejadas, idosas sendo estrupadas, dentre outras coisas. Entendo a necessidade de clicks, chamar a atenção, mas esse não pode ser o nosso plano porque claramente não está funcionando. Não temos o monopólio do amor, do bom senso, ninguém tem. A senhora Damares Alves é uma sobrevivente como milhões, senão quase todas as mulheres desse país, não importa o que ela diga. Todo mundo já entendeu que o nosso estado não é laico, e aí? Qual o próximo passo? Não vejo um plano claro em ficar repostando reportagens sobre quão RIDÍCULAS são as falas da futura ministra. Estamos em retrocesso com certeza, não estou negando isso, mas quando há retrocesso é preciso que haja evolução, uma resistência empática, nutridora de ideias e de entusiasmo. Somos humanos e somos fracos, essa corrente de bullying indulgente contra os "bolsominions" não está funcionando. Eu já fiz muito isso, e esse medo no peito não mudou nada desde outubro. 

E indo para um outro extremo temos o episódio de uma das mais bem sucedidas blogueiras do país, a Kéfera, que eu tive acesso em alguns dos compartilhamentos de lacração em minha timeline. Dá pra ver nos olhos dela o que gostamos de brincar ser a misandria, que é o ódio aos homens, e que na verdade não tem valor como ação de poder, porque as mulheres não possuem no poder no sistema patriarcal, misandria é irmã do racismo reverso, ou o racismo contra os brancos, não existe. E isso não é uma questão de opinião, já discuti muito sobre, é histórico. Quando eu assisti ao video parte de mim concordou com a atitude dela, mas parte de mim entendeu mais a Fátima Bernardes. Importante dizer que quando descobrimos o feminismo, e é realmente algo a ser descoberto, como crescer pensando que a roupa que eu usava era responsável pelo desejo que eu suscitava nos homens, quando descobrimos que existe toda uma estrutura perversa que odeia as mulheres, vem uma raiva enorme mesmo. Eu sentia raiva todos os dias, e muitas vezes essa raiva era direcionada aos homens, pensava que eles não tinham que fazer parte da conversa. Do outro lado da raiva, porque sou intensa e a descoberta do feminismo é catárquica, pensava que a sororidade era algo indiscutível e para todas as mulheres com quem eu me relacionasse até o dia em que tive que me relacionar diariamente com uma mulher muito mal caráter, e na prática, depois de me sentir culpada por não conseguir exercer a sororidade, entender que ela não é e nem deve ser para todas. Mulheres também são escrotas. 

O que quero dizer é que a atitude da Kéfera reflete a nossa atitude geral contra as pessoas que discordam de nós, porque no final é só isso. Precisamos ser inteligentes, diplomatas, e o tempo nos dá a sabedoria para entender o que fazer. Eu venho de um ano muito silencioso sobre a questão feminista comparado com o ano em que eu despertei para a temática. Não renego a raiva propulsora que me fez defender o movimento, falar sobre ele com minhas amigas, falar sobre ele com minha mãe, minha avó, meus amigos, e hoje colho os frutos dessa explosão, bons frutos. Não me senti confortável com a fala da Kéfera porque foi mal-educada, e a grosseria faz com que as pessoas não escutem, e no mais não foi inteligente, ainda mais em um mundo onde todos somos criados para odiar as mulheres, inclusive as mulheres, e inclusive as feministas, pra se salvar disso é só com a tal da desconstrução diária mesmo. Precisamos sempre pensar que chegamos em desvantagem no palanque da vida, nossa identificação de gênero não nos ajuda no debate, e por isso que precisamos ir além. Não aconselho que guardemos a raiva, porque ela é valiosa como motor para a mudança, mas é importante cuida-la como uma fogueira em um campo aberto, protegendo-a, não adianta atear foto na grama. 

Aufwiedersehen!!







terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A morte na tela

Esse é um desses textos que faz crossover com meu outro blog, pensando em conteúdo audiovisual, narrativa e a interface com a nossa vida diária. Quero falar sobre os significados das mortes de personagens importantes em filmes e séries, e sobre os possíveis porquês dessa escolha narrativa que tem se tornado tão comum. Lembro de ter uns dez anos e  quando vi o Simba assistir ao seu pai sendo morto dentro de um cinema que havia no centro da minha pequena cidade do interior e que hoje é uma Assembléia do Reino de Deus, em um movimento bem parecido com o que eles estão fazendo na Holanda, só que não.

Eu ouso dizer que o que faz O Rei Leão (1994), dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, com roteiro incrível da Linda Wooverton, Jonathan Roberts, Irene Mecchi, ser um dos melhores filmes que eu já assisti na vida, apesar de ser uma animação e eu realmente tenho um pouco de dificuldade com tudo que não seja longa metragem live action ficção, é exatamente por esse momento em que o nosso protagonista precisa iniciar uma jornada que pra qualquer pessoa se torna algo inesquecível por conta daquele momento de profunda violência e ainda mais quando cometida por alguém de confiança da família. Nos compadecemos da dor daquele filhote bobo, e quase sentimos um pouco de raiva por ele ser tão suscetível. 

Pulando um pouco no tempo, chegamos em uma das primeiras séries nessa lista de conteúdo feito para devorar no verbo to binge watch, em Lost (2004), criada por J.J Abrams, Damon Lindelof, Jeffrey Lieber, estrelada por Matthew Fox, Evangeline Lilly e Josh Holloway, lembro claramente da sensação de perder um dos personagens mais queridos, o Charlie, e como na época foi chocante pelo comentário dos espectadores, e como aquilo trouxe um pouco mais de verdade para aquela história louca que todos nós sabemos que não terminou muito bem. A morte do personagem reavivou o interesse pela série.

Impossível não falar da maior revolução em termos de narrativa, Game of Thrones (2011), criado por D.B. Weiss, David Benioff, estrelando Lena Headey, Emilia Clarke, Peter Dinklage, e Kit Harington. Eu diria que uma das maiores razões do sucesso de GOT foi a indeia louca de matar um protagonista, algo impensável até então, e justo com Ned Stark, um dos mais saudosos personagens da série, e seguiram fazendo com um ápice sanguinolento no episódio do Red Wedding. Essas mortes nefastas trazem a ficção pra perto da realidade e nos ata a narrativa porque as pessoas morrem, e a morte passa a ter significado quando pessoas amadas morrem. 



Eu agora não posso seguir comentando muito porque ainda é recente e pode se transformar em super spoiler, mas algumas outras séries recentes tomaram decisões parecidas, matar protagonistas e seguir com a série muitas vezes tem acontecido para cobrir o pedido de saída de determinado ator, e não como algo realmente construído no arco do personagem, o que normalmente não funciona muito bem. 

Me lembro da época da Copa no Brasil em 2014, no fatídico jogo contra a Alemanha, de como eu precisava daquela vitória do nosso time, estava vivendo um ano complicado, pulando de freela em freela, e a Copa significava a minha absolvição do mundo real, mas o 7x1 me deu um chute e me colocou em algum lugar de volta a realidade. Acho que o que eu quero dizer é que a ficção pode nos exercitar a perder, a não ter êxito, a desapegar, por que se existe algo que segue presente na vida do início ao fim, isso é a perda. 

Aufwiedersehen!!