E tem mais...

(...)

Um monte de coisa misturada..

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Leve demais


Antes de começar a escrever esse texto, como sempre, fiz questão de organizar esse layout que deve ser justificado - nada mais calmante que um texto justificado - com uma fonte diferente de Arial porque ninguém merece escrever em Arial um texto super sincero - escolhi a despretensiosa e limpa Helvetica - e por último defini o espaço entre linhas para 1,5. Isso tudo não sem antes fazer novamente um esforço imenso para acordar, chocar minha retina com a luz das minhas quatro redes sociais, 10% no decadente facebook, 15% no old but gold twitter, 20% Linkedin e os últimos 55% no queridinho porém ordinário, Instagram, para finalmente despertar e sair da cama às 10:30h, quase sempre por uma vontade incontrolável de mijar. Volto para a cama, abraço e sinto o cheiro amanteigado da nuca do meu marido, e só então me levanto de verdade para tomar minha água com limão espremido e preparar o café.
Hoje comecei a preparar o almoço na hora do nosso desayuno porque ele teria uma prova de trabalho às 13h. Estamos devendo para os meus pais e agora para o banco, mas nos consideramos na maioria do tempo vencedores, porque as coisas não sucederam nada como imaginávamos por aqui, na imigração. Já se passaram cinco meses sem que eu possa trabalhar, normalmente eu que tenho sido nossa principal fonte de renda, e meu marido já teve uns quatro trabalhos entre uma crise existencial profissional e outra. Eis que em duas semanas chega o agendamento para a minha entrega de documentos para enfim areglar los papeles, não serei eu em breve mais um membro desse grupo vasto de sin papeles na bela Barcelona.

E enquanto preparava o almoço para ele, minha comida preferida, macarrão sem molho com o que sobre na geladeira, literalmente o que sobra porque vamos mudar de apartamento amanhã, sentia uma pequena chama de ânimo aquecer meu peito que andava frio e seco desde ontem por motivos distintos que foram enfatizados por uma cólica feroz. Aliás, antes da cólica eu havia colocado de forma errada o meu coletor menstrual, e no metrô sentia o sangue vazando como uma lembrança sórdida da adolescência, até me lembrar que sou feminista hoje, e também adulta, e que o sangue celebra a nossa natureza divina feminina. Apelar pra natureza selvagem sempre ajuda e faz sentido.

Comecei a guardar minhas roupas na mala desde segunda, hoje é sexta. Não me lembro quando me tornei essa pessoa tão cheia de manias e de uma organização quase neurótica, mas talvez eu esteja de novo sendo muito dura comigo. Arrumar as coisas, ou deixar tudo preparado com antecedência me traz uma sensação de tranquilidade, como se encontrasse vestígios do futuro enquanto organizo as coisas que levo comigo. As louças sujas na pia, ou principalmente a cama mal arrumada da noite anterior, gritam, tenho certeza. Não é possível conversar com o futuro em uma casa mal arrumada. Estou lendo Carolina de Jesus do Quarto de Despejo, e penso que ela não tinha esse luxo de arrumar as coisas, ou nem mesmo o presente do silêncio, com as brigas frequentes na favela onde não existe o particular, tudo é público. Dizem que ajuda pensar nas pessoas que estão em piores condições que você quando se sente triste, mas sempre achei isso um pouco cruel. Eu fico ainda mais triste pelas Carolinas, e sinto um pouco de asco das minhas preocupações que precisam ser legítimas para que eu sobreviva.

A cabeça humana é louca. Estava falando com meu marido esses dias sobre como essa experiência nossa de desapegar tem sido estranha. Primeiro desapeguei do meu trabalho, depois de muitas roupas, móveis, livros, nosso apartamento, nossa cama. Depois minhas amigas, São Paulo, nossa família, até que restaram nós dois e algumas malas. Lembrei do Milan Kundera e meu livro preferido nunca fez tanto sentido, “A insustentável leveza do ser”. Tive uma experiência muito gráfica da leveza em um grupo de meditação que estivemos, recebi a diksha de três pessoas com quem me conectei rapidamente, e por alguns segundos não senti o meu corpo. Foi como uma sensação geral de formigação sem a sensação da formigação, e naquele momento percebi que estaria ok morrer. Eu não era aquele corpo. Esse pensamento tem me assustado, como se eu estivesse vendo com clareza e de longe, leve demais.

E com a quase organização final dos meus papéis vem a expectativa de voltar a trabalhar, e o pensamento sobre o que eu gostaria de fazer. Foram seis meses com formato de anos, e me parece bobo voltar a me dedicar integralmente a publicidade e ao atendimento ao cliente, mas se não for isso, o que?

Aufwiedersehen!!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

De Kéfera a Ministra Damares e os desafios da sororidade

Ver notícias ridicularizando a futura ministra e pastora evangélica Damares Alves na minha timeline do facebook tem me levantado um sinal de alerta, na verdade mais do que um alerta, uma sensação de deja vu mesmo. Há cerca de dois anos na época do impeachment da Dilma, outra figura rondava ininterruptamente as nossas timelines e ele veio a se tornar presidente do Brasil. Quando começamos a nos sentir tão superiores e viciados por esse sensacionalismo? Quando perdemos a direção do movimento de esquerda pelo social, pela integração e luta por direitos iguais para todas as pessoas, para essa necessidade de se provar tão lúcida diante dos fatos? Acho que depois do show de horrores que foi essa eleição, está claro que não existe valor moral superior para quem está na esquerda ou na direita. Claro, como alguém que se identifica com a esquerda, podemos correr o risco de nos sentirmos superiores porque por conceito "olhamos para o mais fraco", mas isso é tão abstrato, tão abstrato quanto um tweet nervoso. Escrevo sobre isso porque não sei vocês, mas não me ajudou em nada pensar que eu era superior a quem votava no Bolsonaro ou muito menos focar no HORROR, o HORROR de tudo o que ele diz, o RIDÍCULO. Estamos falando com as paredes, ou melhor, estamos circularmente adoecendo uns aos outros. 

Quebrando o tabu que é uma das páginas mais acessadas e de referência de luta pelos direitos humanos no Brasil sempre foi um lugar de encontro, de ideias, sempre me representou. Mas nos últimos meses tenho pensado seriamente em parar de segui-los. É uma notícia mais infeliz e sensacionalista atrás da outra. Crianças sendo estupradas e esquartejadas, idosas sendo estrupadas, dentre outras coisas. Entendo a necessidade de clicks, chamar a atenção, mas esse não pode ser o nosso plano porque claramente não está funcionando. Não temos o monopólio do amor, do bom senso, ninguém tem. A senhora Damares Alves é uma sobrevivente como milhões, senão quase todas as mulheres desse país, não importa o que ela diga. Todo mundo já entendeu que o nosso estado não é laico, e aí? Qual o próximo passo? Não vejo um plano claro em ficar repostando reportagens sobre quão RIDÍCULAS são as falas da futura ministra. Estamos em retrocesso com certeza, não estou negando isso, mas quando há retrocesso é preciso que haja evolução, uma resistência empática, nutridora de ideias e de entusiasmo. Somos humanos e somos fracos, essa corrente de bullying indulgente contra os "bolsominions" não está funcionando. Eu já fiz muito isso, e esse medo no peito não mudou nada desde outubro. 

E indo para um outro extremo temos o episódio de uma das mais bem sucedidas blogueiras do país, a Kéfera, que eu tive acesso em alguns dos compartilhamentos de lacração em minha timeline. Dá pra ver nos olhos dela o que gostamos de brincar ser a misandria, que é o ódio aos homens, e que na verdade não tem valor como ação de poder, porque as mulheres não possuem no poder no sistema patriarcal, misandria é irmã do racismo reverso, ou o racismo contra os brancos, não existe. E isso não é uma questão de opinião, já discuti muito sobre, é histórico. Quando eu assisti ao video parte de mim concordou com a atitude dela, mas parte de mim entendeu mais a Fátima Bernardes. Importante dizer que quando descobrimos o feminismo, e é realmente algo a ser descoberto, como crescer pensando que a roupa que eu usava era responsável pelo desejo que eu suscitava nos homens, quando descobrimos que existe toda uma estrutura perversa que odeia as mulheres, vem uma raiva enorme mesmo. Eu sentia raiva todos os dias, e muitas vezes essa raiva era direcionada aos homens, pensava que eles não tinham que fazer parte da conversa. Do outro lado da raiva, porque sou intensa e a descoberta do feminismo é catárquica, pensava que a sororidade era algo indiscutível e para todas as mulheres com quem eu me relacionasse até o dia em que tive que me relacionar diariamente com uma mulher muito mal caráter, e na prática, depois de me sentir culpada por não conseguir exercer a sororidade, entender que ela não é e nem deve ser para todas. Mulheres também são escrotas. 

O que quero dizer é que a atitude da Kéfera reflete a nossa atitude geral contra as pessoas que discordam de nós, porque no final é só isso. Precisamos ser inteligentes, diplomatas, e o tempo nos dá a sabedoria para entender o que fazer. Eu venho de um ano muito silencioso sobre a questão feminista comparado com o ano em que eu despertei para a temática. Não renego a raiva propulsora que me fez defender o movimento, falar sobre ele com minhas amigas, falar sobre ele com minha mãe, minha avó, meus amigos, e hoje colho os frutos dessa explosão, bons frutos. Não me senti confortável com a fala da Kéfera porque foi mal-educada, e a grosseria faz com que as pessoas não escutem, e no mais não foi inteligente, ainda mais em um mundo onde todos somos criados para odiar as mulheres, inclusive as mulheres, e inclusive as feministas, pra se salvar disso é só com a tal da desconstrução diária mesmo. Precisamos sempre pensar que chegamos em desvantagem no palanque da vida, nossa identificação de gênero não nos ajuda no debate, e por isso que precisamos ir além. Não aconselho que guardemos a raiva, porque ela é valiosa como motor para a mudança, mas é importante cuida-la como uma fogueira em um campo aberto, protegendo-a, não adianta atear foto na grama. 

Aufwiedersehen!!







terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A morte na tela

Esse é um desses textos que faz crossover com meu outro blog, pensando em conteúdo audiovisual, narrativa e a interface com a nossa vida diária. Quero falar sobre os significados das mortes de personagens importantes em filmes e séries, e sobre os possíveis porquês dessa escolha narrativa que tem se tornado tão comum. Lembro de ter uns dez anos e  quando vi o Simba assistir ao seu pai sendo morto dentro de um cinema que havia no centro da minha pequena cidade do interior e que hoje é uma Assembléia do Reino de Deus, em um movimento bem parecido com o que eles estão fazendo na Holanda, só que não.

Eu ouso dizer que o que faz O Rei Leão (1994), dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, com roteiro incrível da Linda Wooverton, Jonathan Roberts, Irene Mecchi, ser um dos melhores filmes que eu já assisti na vida, apesar de ser uma animação e eu realmente tenho um pouco de dificuldade com tudo que não seja longa metragem live action ficção, é exatamente por esse momento em que o nosso protagonista precisa iniciar uma jornada que pra qualquer pessoa se torna algo inesquecível por conta daquele momento de profunda violência e ainda mais quando cometida por alguém de confiança da família. Nos compadecemos da dor daquele filhote bobo, e quase sentimos um pouco de raiva por ele ser tão suscetível. 

Pulando um pouco no tempo, chegamos em uma das primeiras séries nessa lista de conteúdo feito para devorar no verbo to binge watch, em Lost (2004), criada por J.J Abrams, Damon Lindelof, Jeffrey Lieber, estrelada por Matthew Fox, Evangeline Lilly e Josh Holloway, lembro claramente da sensação de perder um dos personagens mais queridos, o Charlie, e como na época foi chocante pelo comentário dos espectadores, e como aquilo trouxe um pouco mais de verdade para aquela história louca que todos nós sabemos que não terminou muito bem. A morte do personagem reavivou o interesse pela série.

Impossível não falar da maior revolução em termos de narrativa, Game of Thrones (2011), criado por D.B. Weiss, David Benioff, estrelando Lena Headey, Emilia Clarke, Peter Dinklage, e Kit Harington. Eu diria que uma das maiores razões do sucesso de GOT foi a indeia louca de matar um protagonista, algo impensável até então, e justo com Ned Stark, um dos mais saudosos personagens da série, e seguiram fazendo com um ápice sanguinolento no episódio do Red Wedding. Essas mortes nefastas trazem a ficção pra perto da realidade e nos ata a narrativa porque as pessoas morrem, e a morte passa a ter significado quando pessoas amadas morrem. 



Eu agora não posso seguir comentando muito porque ainda é recente e pode se transformar em super spoiler, mas algumas outras séries recentes tomaram decisões parecidas, matar protagonistas e seguir com a série muitas vezes tem acontecido para cobrir o pedido de saída de determinado ator, e não como algo realmente construído no arco do personagem, o que normalmente não funciona muito bem. 

Me lembro da época da Copa no Brasil em 2014, no fatídico jogo contra a Alemanha, de como eu precisava daquela vitória do nosso time, estava vivendo um ano complicado, pulando de freela em freela, e a Copa significava a minha absolvição do mundo real, mas o 7x1 me deu um chute e me colocou em algum lugar de volta a realidade. Acho que o que eu quero dizer é que a ficção pode nos exercitar a perder, a não ter êxito, a desapegar, por que se existe algo que segue presente na vida do início ao fim, isso é a perda. 

Aufwiedersehen!!



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Menos papo

No post anterior estava comemorando o fato de estar me conhecendo, e já vou pedir desculpas com antecedência pela relação de normatividade que farei na sequência, mas gostaria de falar mais sobre a extroversão compulsória brasileira. Percebi a felicidade real de estar só, ou ser deixada de lado no no bom sentido, quando fui morar em Munique, uma cidade que além de ser grande e ter todo tipo de coisa rolando, era na fria e distante Alemanha, onde ninguém vai puxar papo com você na rua, ou fazer perguntas íntimas só para passar o tempo. Antes de estar em Munique, eu vivia novamente em Araras recém formada e com meus pais, e tive uma briga meio chata com a minha mãe porque ela insistia em comentar com todas as pessoas que encontrava na rua sobre o fato de eu estar me mudando para a Alemanha. Claro que um milhão de coisas deviam estar passando na cabeça dela em um carnaval de orgulho pela filha que iria cair no mundo, e muito medo pela distância, mas aquela necessidade que ela tinha de compartilhar um fato sobre a minha vida me incomodava, chamava ainda mais atenção sobre mim. Vale dizer que eu sou leonina com ascendência também em leão, e que em teoria tudo que os leoninos querem é chamar atenção, mas talvez eu esteja simplificando o meu dilema. Não faz muito tempo que percebi que eu era introvertida, e foi graças a uma das tantas reportagens da saudosa Superinteressante que assinei durante muito tempo. Ser introvertida, aprendi com a reportagem, não significa necessariamente ser tímida, significa que você precisa estar só e recarregar as energias depois de certa quantidade de tempo de socialização. Foi um alívio enorme dar um nome para a minha quase pulsão por deitar na sala e assistir TV quietinha depois de algumas horas de um grande almoço familiar. Como boa católica essa necessidade sempre vinha cercada de culpa por talvez não apreciar de verdade o almoço em família, mas só eu sabia que precisava deo silêncio, e o quanto ele me nutria. O lance do som é uma coisa que pega muito, o ruído excessivo e contínuo, principalmente de conversas concomitantes tende a causar um desconforto enorme depois de horas, e as vezes uma saída de uma hora pode salvar tudo. Percebi que ficava muito nervosa e triste principalmente nas viagens históricas em galera, lá para o terceiro dia de convívio, e nunca compreendia que aquela sensação era apenas a de estafa psicológica mesmo. Sei hoje que o grupo ideal de parceiros de viagem são duas pessoas, no máximo quatro, e de preferência com um alto teor de intimidade. 

Algumas fobias específicas que vou fazer questão de denominar dessa forma, porque realmente me causavam muito nervoso, sempre foram as primeiras aproximações com pessoas que não tenho tanta intimidade mas que são do meu convívio. Um exemplo, em um dos meus primeiros trabalhos em que teria que ir a uma reunião com cliente, quando eu sabia que iríamos apenas mais uma pessoa e eu, costumava ficar super nervosa pensando em possíveis tópicos de conversa no carro a caminho da reunião, porque pela falta de intimidade isso não rolaria tão facilmente. Esse tipo de fobia melhorou com os anos, mas uma em especial se manteve firme, o almoço sozinha em dia de trabalho. Almoçar sozinha era o único momento do meu dia de publicitária/produtora em que teria a chance de não interagir com nenhum ser humano, mas sempre havia a pegadinha de almoçar em um lugar muito próximo da firma e topar com alguém, e o meu medo nesse caso seria ter que me sentar com o colega em questão. Não consigo explicar a aflição que eu sentia por considerar perder aquele horinha preciosa de limpeza mental, e nem vou entrar na temática de comer em frente a pessoas com quem não tenho muita intimidade, para mim esse lance de reunião de trabalho/almoço não faz o menor sentido, comer é celebrar, e reunião não combina muito com isso.

Não sei dizer ao certo o que acontece, mas me peguei relembrando essa questão da culpa porque hoje vivemos meu marido e eu com outro casal aqui em Barcelona, e ontem como já aconteceu outras vezes, ele ficou na sala conversando com o casal, enquanto eu continuava no quarto assistindo a uma série. A coceirinha da culpa por parecer talvez antipática veio dar oi, e acho que ela nunca vai me deixar. Fico cansada por constantemente lutar contra a minha introspecção, me forçar a sair e interagir, já me esforcei muito em relação a isso, há anos, mas se essa viagem me permitiu algo foi abraçar quem eu sempre fui, antes de tomar a decisão de me tornar comunicadora. Eu sou a criança que brinca sozinha o dia todo, para depois ter vontade de brincar com outras crianças quando elas chegam, porque está sempre renovada em sua introspecção. Escrever, ler, cozinhar são minhas festas particulares, e recentemente graças a um trabalho voluntariado, tenho feito traduções e descoberto outro mundo incrível. Me sinto bem contente com passatempos não normativos, como andar de ônibus durante horas sem falar nada, olhando a vida la fora passar, amo sentir o movimento, e assimilar o fato de apenas estar enquanto minha mente segue no seu ritmo. Esses dias conversando com uma amiga concluímos que isso de estar no ônibus quieta não deixa de ser um tipo de meditação, porque não?

Sobre os ruídos, eles seguem me incomodando, apesar de ser apaixonada por música, e principalmente ao jazz devo uma epifania: existe massagem para o cérebro.

 
Noite dos meus autógrafos no lançamento do meu livro de bolso baseado neste very blog - se eu escrever outro livro não gostaria de fazer isso novamente.


Aufwiedersehen!!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Prazer em me conhecer


São 12h de uma terça-feira qualquer em Barcelona. Estamos no Outono, mas ontem o Inverno veio dar um oi nessa ressaca eleitoral brasileira. De acordo com o meu Android - porque não sou socialista de iphone - faz 7 graus lá fora, e pela primeira vez na vida sinto uma certa simpatia pelo frio. Quando chegamos aqui no final de junho já fazia calor, com um vento suave que vinha do mar para refrescar os entardeceres às 22h. Até que veio o fim de semana seguinte ao meu aniversário, dia 5 de agosto, o dia mais quente da minha vida, que me deixou prostrada no sofá sem conseguir me mover. Estou gostando do frio porque hoje ele me permite ser quem preciso ser agora: a migrante introspectiva do interior de São Paulo convertida em imigrante sem papéis. Um problema no pé e a demora para finalização dos meus papéis de trabalho por aqui me impediram de seguir no ritmo que estava acostumada na última década. A menina desligada e desajeitada por ter crescido demais e muito rapidamente, deu lugar a uma workaholic conectada 24 horas por dia, seja no trabalho, seja nas redes sociais, seja aos milhares de amigos a sua volta. Foi excitante me transformar nessa mulher incisiva, às vezes até mesmo brava, foi ela que me levou para Nova Iorque e por dez dias andamos por aquelas ruas falando o inglês que aprendemos com as milhares de séries e filmes. E então ela casou, veio para Barcelona e não pôde trabalhar. Estava longe das amigas, da família, e foi aí que entrou a comida. São 12h de uma terça-feira qualquer friorenta, e comecei esse texto para contar que eu me peguei beijando o biquinho da jarra do liquidificador. A razão de tamanho afeto era o húmus - pasta de grão de bico, alho, azeite, sal e suco de limão - que acabava de bater, e que me fez perceber que talvez cozinhar tenha salvado minha vida, de novo.

Antes de seguir às evidências, gostaria de compartilhar uma situação minha com o Universo, ou a força maior que rege tudo, ou simplesmente, Elza Soares. Os movimentos que a vida faz têm uma sabedoria incrível, o que não quero que vocês entendam como uma afirmação #gratiluz, mas mais como uma concessão cansada mesmo de quem já tentou lutar muito contra. Aceitar é mais importante que lutar, e na verdade, manter-se sã no meio desse caminho é a grande chave do sucesso. Me incomoda hoje a sensação de viver dentro do mundo de Truman, sei que não sou tão importante assim pro universo, senão Jair Bolsonaro não teria sido eleito - nunca vou superar isso - mas sinto que precisamos rever o conceito de livre arbítrio, e aqui, meu ponto de vista é realmente laico - diferente do estado brasileiro, tá parei - apenas uma impressão do quanto somos minúsculos, de que existe sim o fator sorte, e isso inclui privilégio também, e no final das contas para sobreviver hoje é muito mais importante ser flexível que corajosa.

E então, como disse algumas vezes nesse very blog, não somos especiais, mas precisamos nos conhecer. E nesse sentido, a nossa educação em relação a sociedade falha tremendamente. Primeiro porque lutamos boa parte de nossas vidas para sermos aceitos - estou falando em nome dos velhos milleniuns, não sobre essa nova geração super afirmativa que nasceu no orkut. Quando lutamos para sermos aceitos, baseamos nossas escolhas em fatores externos que muitas vezes são nocivos a nossa personalidade. Vou dar um exemplo prático: na Unesp de Bauru havia três faculdades: Faculdade de Ciências, Engenharia, e finalmente a FAAC, de arquitetura, artes e comunicação, onde meu curso de relações públicas estava. No final do meu primeiro ano, já talvez brotando a publicitária em mim, resolvi entrar na Atlética do campus, que era majoritariamente formada por engenheiros, e por lá eu fiquei trabalhando na diretoria de comunicação por mais dois anos. Isso fez com que as minhas primeiras festas com Caetano Veloso, Mutantes, Nação Zumbi, Funk como le Gusta, Teatro Mágico e cia, desse lugar para os Inimigos da HP e o Chiclete com Banana. E não vou dizer que não “Valeu, o nosso amor valeu demais!”, morro de saudade das micaretas e das reuniões de domingo na Atlética, apesar do clima machista do início do séc XXI ser totalmente normalizado. Meus amigos engenheiros são meus amigos até hoje, estamos juntos a quase quinze anos, em Bauru, Maresias, Las Vegas, São Paulo, passando pelo rompimento de muitos namorados e namoradas, casamentos, filhos, tudo não necessariamente nessa ordem. Mas minha cabeça não consigo deixar de me perguntar como teria sido reconfortante ter participado mais das festas hipongas da FAAC, pessoas que agora reencontro com a mesma ideologia, na esquerda, no feminismo atuante, na discussão de gênero.

A faculdade foi um interlúdio louco, quatro anos de liberdade pura para testar quem eu era, até o último, quando a magia começou a dissipar para mostrar um futuro que não era certo porque não consegui me reconhecer e me empoderar nos três anos anteriores. Eu era infantil, e só passaria pela minha primeira prova real com o desemprego de seis meses ao voltar para a casa dos meus pais em Araras, e que só seria superado pelo desemprego que empreendi ao sair do meu primeiro trabalho na publicidade paulistana, e que ia muito bem há quase quatro anos, enquanto por dois anos pulei de freela em freela. Precisei voltar a pedir ajuda ao meu pai e fui obrigada a rever quem eu era, não sem uma grande tristeza muito parecida com depressão me empurrando para dentro do meu quarto. Em agosto de 2013 resolvi mudar para um apartamento sozinha, depois de ter morado com amigas nos últimos nove anos. Era uma urgência incontrolável para me encontrar, mas demorou para que eu mesma pudesse confiar nesse encontro. Corri com a arrumação do que carinhosamente chamava como meu studio, e depois de me sentir feliz com a direção de arte e todos meus livros expostos na sala, encontrei uma tristeza imensa que vem nos abraçar no ócio. Nas crises tentava considerar se não era talvez uma questão de lugar, se não estaria melhor em Araras, ou junto com as minhas amigas, para depois perceber que não havia um lugar que pudesse me separar de mim mesma, e então eu ficava ali na cama, as vezes em posição fetal, as vezes chorando, esperando que a sensação do nada passasse.

Um dia resolvi ir para cozinha e comecei a inventar coisas. Gostei da sensação de não pensar em nada além da combinação de sabores, em cortar coisas e depois limpar a louça. Costumava ir ao mercado e escolher o primeiro ingrediente que via pela frente para decidir o que faria depois. Minha especialidade era o macarrão sem molho, feito com base de alho, cebola e tomate, e o que tivesse na geladeira. Também comia tapioca com banana e canela todas as manhãs, até enjoar. Aquela cozinha que era só minha apesar de ter um fogão elétrico muito fraco - só depois de um ano descobri que ele deveria ser ligado no 220v - foi o meu lugar de fuga. E enquanto criava a comida, e sentia os cheiros, me reconectava com algo que já não lembrava mais, talvez minhas avós. E então passei a chamar as pessoas para me visitarem, cozinhar para elas, e rapidamente o studio se transformou em um lugar quentinho de encontro e comida.  Foi nesse momento que conheci meu marido, depois de muitas derrapadas românticas, e aqueles 38m2 da João Ramalho vão ficar sempre marcados como o lugar onde eu me conheci de verdade. 

Na cozinha havia uma insistência com os vegetais, os temperos, a berinjela reinava firme no meu coração juntamente com o tomate e o manjericão. Descobri novos preparos, curry, a cozinha asiática, Masterchef era meu programa preferido de todos os tempos - ainda é - cheguei a fazer uma campanha e filmar com o Jamie Oliver de quem eu copiava o jeito apaixonado de preparar as coisas com as mãos e de forma quase impetuosa. De lembrar da mágica ácida de um bom limão espremido com a picância de uma pimenta dedo de moça. Meu trabalho me levava a fotografar alimentos, e a estar com chefs renomados brasileiros, e hoje estou aqui, na Catalunya, que apesar do que os independentistas possam dizer, é a Espanha. Aqui o tempero é contido: alho, cebola, azeite e sal. Dificilmente usam ervas ou especiarias, de qualquer forma me coloquei a empreender dois clássicos daqui, as patatas bravas e croquetas, e foi o auge da minha diversão. Me tornei também mezzo vegetariana, priorizando vegetais a carnes, comendo só de vez em quando peixes e ovos. Tirar carne foi como tirar uma distração, percebi a riqueza de combinações possíveis com vegetais e leguminosas, e até mesmo me permito fazer algumas frituras vez por outra. Tem sido muito divertido, o meu corpo curtiu a ideia, meu intestino nem se fale, e os cheiros e sabores passaram a fazer uma festa ainda mais suntuosa no meu paladar.

Não sei o que vai ser de mim, do meu futuro. Tenho escrito bastante, para depois ler, para depois assistir filmes, escrever mais um pouco e cozinhar, mas sigo amando produzir filmes. Não reconheço mais a felicidade histérica da faculdade ou dos fins de semana, vivo pisando em ovos, seguindo pistas e ainda não me encontrei, talvez nunca me encontre. Posso estar enlouquecendo ou posso estar chegando lá. De qualquer forma, tem sido um prazer me conhecer.

Patatas bravas com molho caseiro criado por mim (não acertei na fritura, mas tava delícia)


Aufwiedersehen!!